Preconceito Linguístico

Enviada em 24/09/2022

Na obra “A língua de Eulália”, do linguista Marcos Bagno, evidencia-se o desprezo das universitárias Vera, Emília e Sílvia em relação ao modo de falar da empregada doméstica Eulália, o qual, segundo as estudantes, estaria “errado” por não ser “culto”. Analogamente à ficção, no cenário brasileiro, nota-se que o preconceito linguístico constitui uma mazela recorrente. Nesse aspecto, tal problemática advém da ignorância da população e culmina com a marginalização dos sujeitos.

Inicialmente, cumpre salientar que essa mazela decorre da insipiência da coletividade acerca da mutabilidade do complexo linguístico. Nesse sentido, o sistema educacional tradicionalista, apegado à rigidez gramatical, perpetua a hegemonia da norma culta e fomenta posturas discriminatórias. Sob esse viés, observa-se que o repúdio a respeito das variantes linguísticas, verificado nas críticas à literatura da primeira geração modernista do século XX, ainda se faz presente na sociedade. Dessa forma, contribui-se para a desvalorização da pluralidade do idioma nacional.

Outrossim, vale ressaltar que esse quadro acarreta a exclusão social das vítimas. Sob esse prisma, para além das agressões verbais nas relações interpessoais - sejam elas presenciais ou nos meios virtuais -, os alvos dos ataques também enfrentam dificuldades na obtenção de oportunidades de trabalho. Nesse contexto, cabe mencionar a ex-BBB paraibana Juliette Freire, a qual foi solicitada a “neutralizar” seu sotaque nordestino ao fazer um teste de dublagem em junho de 2022. Dessa maneira, insta a adoção de medidas que visem a mitigar esse impasse.

Depreende-se, portanto, que o preconceito linguístico resulta de desinformação e reforça a segregação social. Urge, então, que o Ministério da Educação - órgão encarregado da qualidade do ensino tupiniquim - promova debates e palestras acerca da importância das diferentes manifestações da língua portuguesa para o patrimônio cultural nacional, por intermédio da inserção de mais conteúdos sobre variações linguísticas nos materiais didáticos e da capacitação dos docentes, a fim de coibir atitudes discriminatórias. Ademais, é mister que a Mídia elabore ficções engajadas que enalteçam a riqueza e a heterogeneidade do idioma, de modo a estimular condutas respeitosas. Dessarte, suavizar-se-á o referido óbice.