Preconceito Linguístico

Enviada em 13/10/2023

Em sua obra “Morte e Vida Severina”, João Cabral de Mello Neto objetivou promover a valorização dos falares regionais e da pluralidade da língua. Entretanto, substancial parcela da população se mostra incapaz de aceitar a diversidade retratada pelo autor modernista, revelando o preconceito linguístico no Brasil como uma grave mazela social. Nesse sentido, para enfrentar o problema, há de se valorizar a linguagem dos grupos excluídos, bem como combater a imposição da norma gramatical.

Diante desse cenário, em 1948, a ONU estabeleceu que um dos principais direitos de um indivíduo é a sua cultura linguística - conhecida como Patrimônio Imaterial -, sendo esta fundamental à dignidade humana. Ocorre que os frequentes discursos de ódio acerca das variantes linguísticas consideradas “inferiores” representam grave problema e vão de encontro àquilo que as Nações Unidas declararam como indispensável: a liberdade da língua. Nesse viés, é incoerente que o Brasil seja conhecido como nação multicultural, mas ainda mantenha o preconceito linguístico como prática social recorrente.

Ademais, enquanto houver imposições normativas da utilização das variantes linguísticas, haverá preconceito. A esse respeito, Marcos Bagno - expoente linguista brasileiro - entende que a língua possui a função social da comunicabilidade e deve colaborar para a inclusão de grupos marginalizados. Todavia, a visão de que existe uma única variante correta impede que a ideologia de Bagno seja a realidade no país, que consegue ser, ao mesmo tempo, multicultural e preconceituoso. Assim, é paradoxal que a linguagem deixe de ter o objetivo de comunicação para se tornar instrumento de opressão.

Cabe, assim, às escolas - responsáveis pela formação dos indivíduos - desestimular a visão normativa do certo e do errado, por meio de projetos pedagógicos, como aulas e palestras, com o objetivo de demonstrar que as variantes da língua são importantes riquezas imateriais e não podem ser objeto de comentários desrespeitosos. Talvez, assim, a pluralidade linguística idealizada por Mello Neto poderá, finalmente, tornar-se realidade.