Prejuízos da ausência de discussão sobre saúde mental no âmbito esportivo
Enviada em 18/08/2021
Na série de 2019 “Spinout”, é retratada história de uma atleta de patinação no gelo que sofre com um distúrbio de bipolaridade. Ao longo da trama, a narrativa mostra como a pressão do meio faz com que ela pare de tomar sua medicação, buscando conseguir expandir seu limite físico, mesmo sabendo das consequências que esse ato teria quanto ao seu psicológico. Fora da ficção, fica claro que a realidade apresentada pode ser relacionada a esta do século XXI: Esgotamento físico e desistímulo dos competidores promovido pelo tabu imposto sobre o tema saúde mental nesse âmbito.
Nesse contexto, é importante destacar que no treinamento esportivo há um foco total na necessidade de ser melhor, de não errar ou se limitar, em uma crença de que ganhar uma competição está acima de qualquer coisa, inclusive da saúde mental do atleta. No livro da Mariana Zabata “De lukov, com amor”, por exemplo, conta-se a história de uma ginasta que, mesmo sem estar totalmente recuperada depois de um acidente em que quebrou uma das pernas algumas semanas antes das olimpíadas, começou a treinar, ignorando a sua dor, por se culpar por ter deixado seu psicológicco a abalar ao ponto dela cair.
Dessa forma, nota-se que essa cultura no esporte de incentivo à supressão dos limites psicológicos já passa a afetar os limites físicos por uma busca pela perfeição.
Além disso, a falta de debate sobre saúde mental dentro do âmbito esportivo não afeta tão somente o próprio atleta, mas também aqueles que se inspiram no mesmo. No documentário “Cheer”, por exemplo, o qual mostra a rotina vivida por líderes de torcida de uma faculdade no estado do Texas, a favorita do público é também a que mais tem inseguranças e ansiedades, mas as esconde por incentivo do meio, mostrando apenas uma face “perfeita” aos colegas de equipe. Dessa forma, as pessoas a sua volta, com seu psicológico abalado, acreditam que nunca vão ser bons o bastante como ela.
Depreende-se, portanto, em função dos aspectos abordados, que os prejuízos causados pelo tabu imposto sobre os limites além dos físicos, dentro do âmbito do esporte, pesam mais do que qualquer benefício possível. Para o fim dessa realidade, urge que as comissões esportivas fiscalizem mais o tratamento dado ao psicológico dos esportistas por meio de exigências mínimas de asseguramento antes de cada treino e inserção de um círculo de apoio entre a equipe dentro da rotina do competidor com a finalidade de que o psicológico passe a ter a mesma prioridade que o físico, divergindo da prática atual. Somente assim o desporto se tornará um espaço de segurança para essas pessoas que fizeram do mesmo suas vidas porque, como cita Artur Schopenhawer, “O maior erro que um homem pode cometer é sacrificar sua saúde a qualquer outra vantagem”.