Prejuízos da ausência de discussão sobre saúde mental no âmbito esportivo
Enviada em 24/08/2021
Denominada como ‘‘Cidadã’’ por Ulysses Guimarães, a Constituição Federal de 1988, por ter sido concebida no processo de redemocratização, garante que todo cidadão brasileiro tenha o pleno acesso à saúde e ao bem-estar social. Entretanto, ao analisar os graves prejuízos da ausência de discussão sobre saúde mental no âmbito esportivo, nota-se um contexto destoante das promessas constitucionais. Assim, é importante salientar a banalização da saúde mental e sua estigmatização como os entraves desse quadro, de modo que urgem medidas por parte do Estado.
Sob esse prisma, é imperativo pontuar a alarmante exigência profissional direcionada aos jogadores pelos técnicos como um fator impulsionador da banalização da saúde mental, haja vista a necessidade de agilidade e excelência que atua no indivíduo de forma degradante, o que empecilha sua integridade mental e contribui na sua negligência. Nesse sentido, o conceito de ‘‘Microfísica do Poder’’, do filósofo Michel Foucault, ilustra bem tal perspectiva, uma vez que, segundo ele, o poder manipulador está em todos os lugares, para controlar o comportamento humano, limitando a liberdade do homem a fim de reforçar a lógica da sociedade opressora. Analogamente, percebe-se uma espécie de disciplina geral interiorizada no esportista, o qual é carecido de políticas para cuidar da sua saúde mental.
Simultaneamente, é lícito afirmar que o inoperante debate acerca das patologias mentais, em virtude do sistema operacional do esporte, arquiteta a estigmatização do bem-estar e da saúde, o que engendra a depressão e a ansiedade, em face da falta de apoio psicológico. Para entender tal apontamento, no livro ‘‘Um de nós está mentindo’’, escrito por Karen McManus, é retratado o cotidiano de Cooper Clay, um jovem que pratica beisebol e possui um rendimento escolar exemplar. No entanto, seu pai, conservador e exigente, ignora o fato do filho necessitar de ajuda psicológica para lidar melhor com seus objetivos pessoais. Paralelamente, é notória a falta de empatia pela qual muitos adultos indiligentes caracterizam-na como banal, demonstrando a escassez do debate sobre a problemática, o que exemplifica o poder manipulador de Foucault e a pressão psicológica vivenciada por Cooper.
Portanto, diante dos desafios supramencionados, torna-se imperiosa a ação do Ministério da Cidadania - em parceria com as intituições esportivas - na criação de uma rede virtual de debates e discussões sobre a arquitetura do esporte, sendo trabalhado a importância de preservar pela saúde mental, em conjunto com a excelência da atividade esportiva com o auxílio de psicólogos e atletas. Isso deve ocorrer mediante um pacote de ações orçamentárias a ser incluído no Plano Plurianual, como recursos assistencialistas com o fito de democratizar o acesso à sanidade mental. Quiçá, nessa via, as promessas constitucionais serão usufruídas por todos, preservando a cultura e a saúde.