Prejuízos da ausência de discussão sobre saúde mental no âmbito esportivo

Enviada em 05/10/2021

O escritor austríaco Stefan Zweig, dada a perseguição nazista na Europa, veio para o Brasil e se radicou no Rio de Janeiro. Influenciado pela cordialidade e pelo potencial dos brasileiros, Zweig exaltou o seu novo país por meio do livro, cujo título ainda é, muitas vezes, repetido: “Brasil, país do futuro”. No entanto, a ausência de discussão sobre saúde mental no âmbito esportivo, permite inferir que sua previsão se limitou às páginas da sua obra. Em razão desse cenário, é preciso compreender que transtornos mentais em atletas de alta performance estão diretamente associados à pressão psicológica e ao alto nível de expectativa em cima destes, bem como questionar de que forma o medo é projetado pelo fracasso.

Em face desse questionamento inicial, é preciso esclarecer que o cuidado com a saúde mental está relacionado não só a forma de lidar psicologicamente com o estresse, mas também com as expectativas por resultados. Por conseguinte, consoante ao pensamento de Marilena Chauí, a ética deveria fundamentar-se em torno de ideias e de práticas positivas de liberdade e felicidade. Contudo, ao lançar olhar sobre a realidade, percebe-se que as habilidades físicas “fora do normal” levam o torcedor a acreditar que os atletas não têm problemas, não sentem dores e são infalíveis. Logo, fica claro que quando o atleta aprende a se empoderar, consegue filtrar as expectativas externas sobre ele.

Nesse contexto, outra questão pontual é o fato de muitos atletas serem influenciados pelo medo do fracasso, haja vista tamanha cobrança pelo bom desempenho. Sob esse viés, cabe observar que, conforme enuncia Zygmunt Baumn, a era moderna levou à liquidez das noções universais e, com isso, passou-se a valorizar o individual e a vida, a partir de uma transitoriedade universal. À luz desse raciocínio, pode-se afirmar que os atletas, apesar de suas habilidades, têm o direito de dizer que não se sentem bem, mesmo que seja o momento mais importante de suas carreiras. Portanto, de nada adianta analisar esse contexto de discriminação, se o individualismo não estiver em pauta.

Isso posto, conclui-se que, enquanto a saúde mental dos esportistas não for colocada como prioridade, seus prejuízos continuarão. Assim, é fundamental que Instituições de Psicologia elaborem programas de desenvolvimento junto aos atletas e à comissão técnica, em que são desenvolvidas competências psicológicas, que englobam o domínio de técnicas interpessoais e intrapessoais, visando benefícios à performance esportiva. Concomitantemente, cabe às mesmas instituições, junto à comissão técnica, ensinar o atleta que ele é humano e que tem escolhas, por meio de programas psicológicos, visando maior capacidade do esportista em lidar com suas imperfeições. Feito isso, espera-se alcançar o “país do futuro“ descrito por Stefan Zweig e promover o bem estar social.