Prejuízos da ausência de discussão sobre saúde mental no âmbito esportivo

Enviada em 05/10/2021

Pierre Bourdieu, em “Outline of a Theory of Practice”, conceitua o termo habitus como uma subjetividade socializada, em que um conjunto de esquemas de percepção infiltra o indivíduo de maneira subliminar, de forma a guiá-lo em suas ações. A partir desse olhar filosófico, pensar a saúde mental em âmbito esportivo é relevante, sobretudo, em tempos em que a cobrança de uma alta performance reforça o habitus de um comportamento mentalmente prejudicial. Nesse viés, é evidente que a construção de um discurso focado na perfeição favorece o desequilíbrio emocional dos esportistas, bem como a falta de preparação psicológica compromete a saúde deles.

Em face dessa enunciação inicial, é preciso esclarecer que uma cultura que propõe altos resultados a todo momento tolhe os atletas da maturidade emocional necessária para lidar com falhas. Cabe salientar que a imagem de atletas como super-humanos os leva a não demonstrar vulnerabilidade, o que os condiciona a estresse crônico e a possíveis síndromes. Nessa perspectiva, pode-se afirmar que o discurso social é, como assevera Foucault em “A Ordem do Discurso”, um conjunto de enunciados que determina as relações entre sujeitos, o que, aliado à lógica bourdieuana, impõe às pessoas uma imagem heroica dos desportistas, mesmo que as custas de seus adoecimento. Logo, fica evidente que um discurso de perfeição desumaniza os atletas, colocando em xeque sua integridade mental.

Nessa lógica, outro ponto relevante é o fato de que a falta de amparo psicológico exaustivo precariza a capacidade do esportista de filtrar sentimentos e pressões externas. Inclusive, o empoderamento do atleta perante essas adversidades é produto direto de acompanhamento profissional, que trabalha o autoconhecimento de suas limitações. Nessa perspectiva, é evidente que, como advoga Hegel em “Filosofia do Poder”, o Estado ético é comprometido para com os direitos sociojurídicos dos cidadãos e o bem-estar social. Assim, fica claro que a construção de uma sociedade que não trata a psicologia como profilaxia vai de encontro ao Estado ético hegeliano e lesa os aspectos sociais e saudáveis da vida cidadã.

Face ao supracitado, confirma-se a necessidade de se contornar a ausência de discussão sobre saúde mental no esporte. Portanto, compete ao Ministério da Educação, aliado ao poder midiático, consolidar campanhas, por meio de anúncios televisivos, cartilhas e pôsteres, que combatam o discurso de heroísmo construído em torno dos desportistas. Ademais, é dever do Ministério da Saúde estabelecer como meta a psicologia como prevenção, alocando recursos para postos de atendimento psicológico em instâncias municipais e nacionais, visando maior acessibilidade dos atletas a acompanhamento profissional. Efetivadas essas ações, espera-se descontruir o habitus de Bourdieu.