Prejuízos da ausência de discussão sobre saúde mental no âmbito esportivo

Enviada em 27/06/2022

O conceito de ‘‘Cidadanias Mutiladas’’, do geógrafo brasileiro Milton Santos, explicita que a democracia só é efetiva quando atinge a totalidade da população. A partir dessa perspectiva, é possível observar que a realidade contemporânea brasileira se distancia desse ideal democrático, visto que a ausência de discussão sobre saúde mental no âmbito esportivo ainda persiste no Brasil. Desse modo, é essencial analisar os principais propulsores desse contexto hostil: o descaso governamental e a manipulação midiática.

Em uma primeira análise, é necessário pontuar a negligência estatal como um entrave nas medidas contra a ausência de saúde mental entre os atletas. Sob essa ótica, o escritor e jornalista Gilberto Dimenstein, em seu livro ‘‘O cidadão de papel’’, fez críticas aos direitos do cidadão que se fazem presentes apenas na teoria. Nesse contexto, o proposto pelo autor é evidenciado com clareza no território nacional, visto que, apesar de ser um direito básico, a saúde não é garantida com totalidade ao corpo social, pois muitos atletas ainda possuem dificuldades em relação ao apoio psicológico, fato ocasionado pela idealização do homem forte. Dessa forma, sem a devida preocupação e intervenção governamental em relação a saúde mental dos atletas, uma parcela significativa da população continuará a sofrer com as doenças mentais no âmbito esportivo.

Além disso, é inegável como a manipulação midiática alicerça aos prejuízos da ausência de discussão sobre saúde mental no âmbito esportivo. Isso acontece porque os veículos de comunicação, pautados em uma perspectiva lucrativa, valorizam o engajamento de seus conteúdos, marginalizando, assim, a abordagem de situações que não evocam a atenção do público, tal como acontece com os problemas sociais sem visibilidade. Dessa maneira, a análise da conjuntura precária, que cerca a saúde mental entre os atletas, é silenciada na mídia por não ser um assunto atrativo e que envolva a maior parte do público-alvo desses veículos. Essa reflexão encontra forças na afirmação de Zigmunt Bauman, para quem “Na era da informação, a invisibilidade é equivalente à morte”, já́ que a pouca visibilidade midiática direcionada para essa problemática leva ao encobrimento dos transtornos mentais sofrido pelos atletas.

Depreende-se, portanto, a necessidade de se combater esses obstáculos. Para isso, é imprescindível que o governo federal atue, por intermédio do Conselho Nacional do Esporte ao tratar da qualidade e do cumprimento das normas esportivas, especificamente criando projetos de ressignificação do esteriótipo dos atletas, afim de ressaltar a importância desse direito básico e erradicar essa situação de adversidade. Assim, o ideal do geógrafo Milton Santos será, de fato, uma realidade no país.