Preservação do patrimônio histórico cultural brasileiro

Enviada em 03/04/2020

No universo literário distópico de “Fahrenheit 451”, o Governo local, objetivando ofuscar o passado e o conhecimento da nova geração, ordena a queima de todas as bibliotecas, através dos, controversamente apelidados, “bombeiros”, o que representou a incineração histórico-cultural do país. Fora da ficção, observa-se, no Brasil, uma tentativa semelhante à do Governo da obra, materializada na ínfima preservação do patrimônio nacional. Entretanto, nesse contexto, os “bombeiros” são os próprios cidadãos mediante o desprezo para com o patrimônio cultural e histórico endêmico, o que urge maior análise.

Cabe ressaltar, em primeiro plano, as benesses dos museus e de outras instituições voltadas ao âmbito cultural. Aristóteles, importante filósofo da Antiguidade, preconizava a “essência do ser”: um estado metafísico que deveria ser alcançado por todos os homens, o qual, sem a cultura e a educação, nunca seria efetivado. Com isso, é possível depreender que a existência desses locais é ímpar para, sendo um elo entre as pessoas e a história, não só tornar o passado presente, mas também possibilitar a “essência” aristotélica. Nesse sentido, torna-se imperioso entender os motivos para a não preservação do patrimônio histórico e cultural brasileiro.

Todavia, o desprezo brasileiro, consolidado pela educação, frente a um benefício antropocêntrico é protagonista dentre as causas da problemática. Isso porquanto uma educação extremamente tecnicista, presenciada no país, tem como consequência indivíduos afastados da história e da cultura, o que diverge das leis do Brasil. Segundo o Artigo 6 da Constituição Federal de 1988, todos os cidadãos, no papel, têm acesso garantido tanto à educação quanto à cultura, no entanto, esses dois preceitos se mostram inconciliáveis, na medida em que a aplicação da Base Comum Curricular (BNCC) não visa à formação de indivíduos críticos perante aspectos humanos, o que, dissonante do ideal, constrói cidadãos alienados e com antolhos para o patrimônio histórico e cultural do país.

Portanto, visto a tempestividade da conjuntura, infere-se que mudanças de vieses educacionais são necessárias para a dissolução dessa. Para tanto, compete ao Ministério da Educação, como instância legal educativa máxima do Estado, o dever de equilibrar o ensino racional e sensível nas escolas, instituindo dinâmicas e estudos acerca da importância da história, da cultura e, sobretudo, do patrimônio material e imaterial do país, por meio de alterações na BNCC, a fim de incentivar a preservação desses e de formar cidadãos mais críticos. Destarte, observar-se-ia não mais “bombeiros” no país, mas sim brasileiros que preservam pelo patrimônio histórico-cultural do Brasil e que podem atingir a “essência” de Aristóteles.