Preservação do patrimônio histórico cultural brasileiro

Enviada em 08/08/2021

No livro “O cortiço” de Aluísio Azevedo, o grande ufanismo evocado pelos moradores do cortiço do João Romão e pelos do cortiço vizinho, retratado em forma de disputas entre os grupos, evidencia a necessidade de o indivíduo ter a sua identidade afirmada. A partir desse cenário, a obra expõe o papel da valorização do patrimônio cultural como uma forma de autoafirmação frente à diversidade. Não obstante, a postura depreciativa do cidadão em relação à sua identidade cultural e histórica e o descaso no que tange à conservação do patrimônio demonstram a naturalização de um estilo de vida alheio ao legado nacional. São prementes, pois, análises sobre os efeitos desse panorama, em nome da proteção dos valores que ainda restam à nação.

A princípio, vale enfatizar o processo de inferiorização cultural vigente no país. Nessa perspectiva, segundo o escritor Nelson Rodrigues, em seu conceito de complexo do vira-lata, o brasileiro se põe voluntariamente à margem, por desconfiar das próprias qualidades. A partir dessa premissa, é perceptível que a adoção de uma postura de vira-lata tende a criar uma mentalidade de conformação tanto ao fracasso, quanto à existência de problemas sociais e históricos na nação. Essa condição se mantém pela aceitação passiva da utopia construída pela cultura midiática acerca do ideal de vida europeizado e americanizado, de modo a ratificar que a deterioração do país é uma condição inerente ao ser brasileiro. Destarte, a identidade do brasileiro perde credibilidade e autenticidade, posto que a solução visualizada pela população é a substituição do deteriorado pelo utópico.

Ademais, a falta de esforços por parte do Estado e do povo na preservação da herança cultural é um obstáculo ao seu enaltecimento. Sob esse prisma, de acordo com dados veiculados pelo jornal Nexo, os investimentos direcionados pelo Estado na área de infraestrutura de espaços de relevância histórica e cultural estão abaixo do valor pleiteado. Dito isso, nota-se uma displicência estatal na proteção das riquezas nacionais. Nesse viés, no quesito patrimônio cultural, a população apresenta uma postura semelhante ao Estado brasileiro, na medida em que fundamenta-se no ideal do viralatismo: “primeiro o outro, depois eu”, conforme refletido por Bauman, o qual afirma que há uma tendência dos serviços públicos se deteriorarem, enquanto os empreendimentos fora do país se tornam abundantes. Logo, é patente como o corpo social se insere em um ciclo de subalternização, em que o pertencente ao brasileiro é constantemente desqualificado por ele mesmo.

Portanto, nota-se que o brasileiro se encontra em uma esfera determinista análogo à dos personagens da obra “O cortiço”. Nos tempos modernos, porém, o ufanismo perdeu sua valia, em meio a um cenário político, social e econômico.