Problemas causados pela possível aprovação da proposta de taxação de livros no Brasil
Enviada em 14/06/2021
“Não julgue um livro pela capa”. Essa frase popularmente dita, cujo significado implica que não se deve tecer uma opinião baseada em uma impressão inicial, passou a ser utilizada em um contexto no qual as pessoas tem fácil acesso à leitura como um todo. No entanto, como se pode julgar um livro por seu conteúdo, em vez da capa, quando seus preços estão demasiadamente caros devido à taxação proposta em 2020 pelo Ministério da Economia brasileiro? Assim, nota-se que o acesso populacional aos livros (aplacado pela taxação) em conjunto com a evolução da literatura é de suma importância — podendo até ser tido como fator gerador — para a formação de uma cultura brasileira.
Vale ressaltar, de início, que a difusão da leitura para a maior parte da população é um fenômeno exclusivo ao final do século XX em diante, ao se ter em mente a evolução histórica da disponibilidade de livros e da taxa de alfabetização. Sob essa ótica, tem-se que, no ocidente, um marco fundamental para o aumento do acesso aos livros foi a criação da prensa móvel, pelo alemão Gutenberg, em meados do século XV, já que possibilitou o processo de copiar textos rapidamente e em grandes quantidades. Dessa forma, não obstante a criação de um meio revolucionário que possibilitou reduzir os custos para a produção de uma obra literária há mais de 500 anos, a aprovação da taxação se mostra como forte empecilho não apenas para a educação, mas para a cultura brasileira como um todo.
Em paralelo, denota-se que a possibilidade de um aumento tributário referente aos livros é um forte motivo gerador de desigualdade cultural e educacional, tendo em vista que reduz o acesso da população como um todo, além de reforçar os preconceitos referente às ideias de cultura erudita e popular. Desse modo, diversos autores afirmam que sempre houve uma diferença de acesso ao ensino no Brasil, tal como o sociólogo Florestan Fernandes, que afirma que a educação brasileira segue os moldes coloniais e, portanto, é elitizada e díspar. A partir disso, sob a visão do sociólogo brasileiro, uma tributação literária como a proposta, viria para reforçar esse caráter elitista e reduziria ainda mais a capacidade do ensino brasileiro, além de ampliar ainda mais a desigualdade cultural do país.
Destarte, a possível taxação literária no Brasil apresenta-se como um meio de reduzir a identificação cultural brasileira, além de ser um forte ampliador da desigualdade no país e, por conta disso, há de ser atenuada. Assim sendo, cabe ao Estado, em conjunto com o Ministério da Educação e Ministério da Cultura, ampliar o acesso e o acervo gratuito no país, por meio da criação de novas bibliotecas públicas e ampliação das existentes. Com tal medida, busca-se aumentar a disponibilidade de contato cultural da população com obras literárias, além de reduzir a disparidade educacional em relação aos livros. Dessarte, pode-se conhecer o conteúdo de um livro para não precisar julgá-lo apenas por sua capa.