Problemas e desafios do transporte público urbano

Enviada em 04/10/2021

Lima Barreto, em seu livro “Os Bruzundangas”, narra um Brasil atrasado e contraditório, em que os avanços materiais não coincidem, infelizmente, com o progresso social. Não obstante, no contexto brasileiro atual, apesar das melhorias na capacidade de concretização do direito de ir e vir por meio do transporte público urbano, tal modal ainda leva consigo diversos percalços que impactam diretamente no seu devido funcionamento. Assim sendo, esses problemas devem ser analisados e combatidos pelo debate público, principlamente em função de suas causas, as quais são a inépcia estatal e o culto alienado ao carro.

Diante desse cenário, cabe notar a falta de ação do poder público no enfrentamento da falta de infraestrutura necessária para um transporte eficiente. Nesse limiar, deve-se lembrar de Thomas Hobbes, filósofo contratualista que aponta como dever do Estado a promoção dos meios necessários para o funcionamento coeso do organismo social. No entanto, a realidade tupiniquim está em discordância com a máxima do pensador, dado que, devido à falta de investimento público suficiente em subsídios para as empresas de transporte, o mercado atual se encontra defasado, com frotas antiquadas que não atendem às demandas da população. Nesse sentido, entende-se que, se a carência orçamentária destinada a essa interface do investimento estatal continuar a existir, o panorama deletério seguirá na mesma direção. Logo, é fundamental que o transporte público urbano e seu planejamento sejam profundamente reavaliados e valorizados pelos órgãos superiores.

Além disso, convém salientar como a alienação manifesta na posse de um carro próprio contribui para a ineficiência do transporte público no meio urbano. Nesse sentido, é importante entender o que é alienação à luz do pensamento de György Lukács. Para ele, ocorre esse fenômeno quando o objeto real, ou seja, o direito e necessidade de ir e vir, é substituído pelo objeto de fetiche, em que o carro se torna um meio de consumo para provar a si mesmo. Assim sendo, tendo como base o pensamento lukacsiano, pode-se compreender como esse desejo de consumo intensifica o uso do carro, fazendo com que mais espaço seja utilizado para transportar menos pessoas, problema que poderia ser resolvido com o transporte coletivo urbano (ônibus e metrôs). Por conseguinte, o fetiche abordado deve ser superado para que se possa ter uma melhoria significativa no funcionamento eficaz da modalidade de transporte tratada.

A partir do que foi dito, conclui-se que o Estado, por intermédio de uma parceria com as empresas privadas de transporte coletivo, promova urgentemente melhorias materiais nas frotas e aquisição de novas unidades de transporte, para que mais pessoas possam utilizar esse modal e para que as ruas fiquem menos engarrafadas. Essa medida deve ser comunicada extensivamente por meio de propagandas nas rádios locais, para que a população fique ciente e participe ativamente nessa mudança. Tem-se como finalidade dessa estratégia mudar os hábitos locais paulatinamente, em vista de uma diminuição do uso individualizado dos carros, e concretizar integralmente o direito de ir e vir. Se assim for feito, uma contradição a menos será vigente no Brasil, o qual se distanciará cada vez mais do país sobre o qual versou Lima Barreto.