Quais são as consequências para a democracia quando a ciência é descredibilizada na sociedade?
Enviada em 05/06/2022
A pandemia do coronavírus, que culminou em 2020, acarretou consequências econômicas, sociais e políticas diversas, dentre as quais está o avanço na difusão do negacionismo científico nas sociedades mundiais. Isso, porque a caracterização da ciência como algo distante da população comum, associado a um protagonismo político na difusão de teorias conspiratórias, tendenciam à descredibilização da ciência. Tal processo, por sua vez, contribui para uma desconfiança generalizada e efeitos na própria democracia. Portanto, é importante discutir a questão.
Em um primeiro aspecto de interesse para a discussão, vale afirmar que a ciência, uma vez considerada algo separado do cidadão comum, torna a dúvida acerca dela mais propícia. Nesse sentido, o pensador brasileiro Paulo Freire adverte para a necessidade de que o conhecimento se construa em comunidade, sem uma segregação e com a participação coletiva. Entretanto, quando ocorre o oposto - e a ciência se restringe a um grupo específico -, é natural o estranhamento ao desconhecido, bem como a inclinação em acreditar em discursos conspiratórios e infudados. Por isso, essa “elitização” da ciência põe-se como parte do problema.
Sob um segundo aspecto, é necessário avaliar como o protagonismo político influencia na fragilidade da ciência, e os impactos desta na democracia. Nesse tocante, o livro “A política em tempos de indignação”, de Daniel Innerarity, propõe que os discursos emocionais-populistas, os quais preenchem um “vazio” causado pela percepção das falhas da política e dos sistemas representativos, são muito eficientes em influenciar comportamentos dos cidadãos. Assim, é coerente que a difusão de ideias conspiratórias, com a descredibilização da ciência, também culminem em uma desconfiança acerca do regime democrático. A partir disso, passa a predominar a anti-ciência, além das declarações anti-democráticas.
À vista dos argumentos supracitados, é necessário o estabelecimento de medidas que abrandam o imbróglio. Para tanto, a comunidade científica deve, por meio de ferramentas digitais, disseminar informações sobre o assunto, de modo a “aproximar” a população do conhecimento, a fim de amadurecer seu pensamento crítico. Desse modo, o negacionismo científico poderia começar a perder força em meio às pessoas.