Quais são as consequências para a democracia quando a ciência é descredibilizada na sociedade?
Enviada em 19/07/2022
Durante sua apresentação do TED Talk, a microbiologista Natalia Pasternak comparou a ciência à personagem mitológica Cassandra ao dizer que nenhuma delas goza de credibilidade perante a sociedade. Ao associar-se esse descrédito científico ao cenário político atual, onde as notícias falsas ganham terreno e a ciência em si não tem nenhum privilégio sobre a verdade para explicar aos eleitores os absurdos que são veiculados na internet, verifica-se uma ameaça à democracia. Tal risco é reflexo, principalmente, do poder da manipulação da opinião pública e da contaminação do rito eleitoral com mentiras.
Primeiramente, é imperioso destacar que as fake news degeneram o processo democrático ao influenciar o voto do eleitor. Como mostra Vladimir Safakle no livro “Ética e pós-verdade”, elas se espalham 70% mais rápida que uma notícia verdadeira. Por isso, é muito difícil conter os estragos causados por um boato virtual. Nesse viés, o alcance das mentiras virtualmente difundidas tem se tornado amplo sem que a ciência tenha a mesma capilaridade para refutá-las e, por isso, muitos votantes não tem acesso à informações críveis para guiar o seu voto. Logo, o descrédito cientificista está diretamente ligado a uma crise na democracia.
Além disso, convém ser mencionado que as eleições perdem sua legitimidade diante de um processo manchado por mentiras. Segundo a filosofia científica de Francis Bacon, o ídolo introduz uma distração ao pensamento racional e desvia o homem da verdade. Nesse sentido, é evidente que textos fraudulentos tem esse poder, já que afastam a ciência de contestá-los, dificultando ainda mais o acesso à informações construtivas que permitam a escolha de um candidato de maneira imaculada. Portanto, fica claro que notícias falsas pervertem as eleições.
À vista do exposto, fica evidente que a crença na ciência precisa ser resgatada. Para tanto, é necessário que as universidades estaduais e federais, por meio de palestras, cursos e eventos de divulgação científica, rompam os limites dos muros de seus campi para promover uma aproximação com a comunidade e, assim, mostrar que o conhecimento produzido dentro das instituições possui aplicação no cotidiano das pessoas e é, sobretudo, confiável. Somente assim, os cientistas deixarão de sofrer da síndrome de Cassandra e poderão salvar a democracia.