Riscos de compartilhar mentiras e boatos na internet
Enviada em 06/04/2020
Em uma de suas mais célebres obras – o drama “Otelo, o Mouro de Veneza” -, o escritor William Shakespeare relata a história de um general que, após a circulação da falsa notícia da traição da sua esposa, decide matá-la. De maneira análoga ao narrado na dramaturgia inglesa, a difusão de informações falsas e enganosas tem traçado uma ascendente trajetória na população brasileira e muito se tem questionado acerca dos riscos e malefícios causados pelo compartilhamento de tais notícias. Nesse contexto, convém o emprego de um olhar crítico de enfrentamento acerca do impasse.
A princípio, nota-se que a era de “pós-verdade” enfrentada pelos indivíduos da sociedade vigente, configura-se como uma das principais causas do imbróglio. A esse respeito, o jornalista inglês Matthew D’ancona - em seu livro, “Pós-Verdade: A Nova Guerra Contra Os Fatos em Tempos de Fake News” -, utiliza tal conceito para caracterizar sociedade em, para a opinião pública, notícias fundamentadas em fatos verídicos e científicos são menos relevantes do que aquelas que possuem crenças e apelos emocionais como base. Nesse contexto, os veículos de imprensa digitais, em busca de maiores cliques e acessos, acabam por priorizar o compartilhamento de informes com viés ideológico previamente aceito pela sociedade - ainda que as notícias neles presentes possuam caráter factual duvidoso.
De outra parte, é válido ressaltar que a disseminação de boatos e inverdades - seja na esfera virtual, seja na esfera real - acarreta significativos riscos à integridade física e psicológica da população. À luz dessa perspectiva, observa-se que, uma vez imersos na pós-factualidade, os indivíduos acabam por perderem seu senso crítico e poder de discernimento, no que tange a averiguação de notícias verdadeiras e falsas, resultando, então, em um compartilhamento desmedido de notícias fantasiosas na internet. Todavia, tal prática pode acarretar em situações como a ocorrida no estado de São Paulo, onde uma mulher foi espancada até ir a óbito, após a circulação, em redes sociais, de uma falsa notícia em que era acusada de sequestrar crianças para a realização de rituais mágicos - conforme noticiado pelo portal G1. casos como o ocorrido no estado de São Paulo
É evidente, portanto, a urgência da mitigação da disseminação de informes mentirosos no país. Destarte, cabe ao Legislativo, a criminalização da disseminação de notícias enganosas, adotando medidas punitivas mais severas e socioeducativas. Ao Ministério da Cidadania, cabe a realização de campanhas que visem sensibilizar o tecido social acerca dos riscos que o compartilhamento de tais notícias representam à sua integridade. Para tanto, pode-se utilizar de debates com profissionais especializados na área e a abordagem do assunto em programas de televisivos de grande audiência e índice de confiabilidade.