Riscos de compartilhar mentiras e boatos na internet

Enviada em 13/04/2020

No livro A Honra Perdida de Katharina Blum, de Heinrich Böll, são retratadas as consequências que informações inverídicas podem causar no cotidiano social. Sob tal ótica, a narrativa foca em como a rotina de Katharina é modificada pelo sensacionalismo de O Jornal, tabloide que passa a publicar notícias falsas sobre a personagem. Fora da ficção, o livro, embora publicado em 1970, se aplica à conjuntura atual, sobretudo devido ao advento dos ambientes digitais, em que é ausente, por parte do sistema educacional, o conceito de alfabetização midiática, levando usuários ao compartilhamento de fatos não comprovados, prática prejudicial aos preceitos constitucionais e democráticos.

Conforme previsto na Constituição de 1988, Art.5, o acesso à informação e à liberdade de comunicação são direitos assegurados. Assim, ao ampliar o acesso às tecnologias digitais, porém sem  fornecer os instrumentos necessários de criticidade em relação ao consumo instantâneo de informações, o Estado, assim como os veículos midiáticos, acabam por tornar propício um ambiente em que pessoas divulgam notícias sem o conhecimento de sua inveracidade. O compartilhamento massivo, ademais, acaba por agravar a repercussão de um fato inverídico. No caso do livro citado, a população local foi a mais afetada. A propagação de notícias falsas pode, contudo, causar efeitos ainda mais amplos, de âmbito nacional, como afetar a normalidade de um processo eleitoral, por exemplo.

Por conseguinte, há, além disso, casos em que fatos sabidamente inverídicos são divulgados por usuários que têm a intenção de fomentar bolhas digitais, em que o mais importante é o conteúdo da notícia, embora falsa, que se alinha aos seus discursos, do que o compromisso com o diálogo democrático, em que é necessário o convívio com o diverso e o respeito dos direitos constitucionais. Sob a ótica de Paulo Freire, é necessário que a tecnologia seja compreendida para ser utilizada como um instrumento educativo e informacional. Os usuários têm sido, contudo, apenas receptores de informações, sem ter as ferramentas necessárias para reconhecer as fontes verdadeiramente oficiais.

Destarte, diante do exposto, são necessárias medidas que intervenham no quadro. Para a educação da sociedade sobre como conhecer e utilizar as ferramentas do âmbito digital, à luz da ótica de Paulo Freire, compete ao Poder Legislativo criar um projeto de Lei que, por meio de verbas orçamentárias, inclua a alfabetização midiática na grade escolar, permitindo, periodicamente, a palestra de jornalistas nas escolas. Além disso, a Lei pode prever que seja feito, nas redes sociais, um redirecionamento dos usuários para fontes de informações confiáveis. Assim, com a implementação de tal política pública pelos Ministérios da Educação e da Tecnologia, o nível de criticidade e de perspectiva cívica por parte de todos, poderá ficar em conformidade com um ambiente digital democrático.