Riscos de compartilhar mentiras e boatos na internet
Enviada em 05/09/2020
Durante a Antiguidade Clássica, os sofistas - pensadores que propagavam informações de caráter persuasivo - não se preocupavam com a veracidade de seus argumentos. Semelhante a essa época, no contexto virtual contemporâneo, os detentores de conteúdos, em grande parte, priorizam a lucratividade e a audiência em detrimento da legitimidade. Dessa forma, o compartilhamento de notícias falsas, em decorrência do senso comum e da falta de averiguamento, é capaz tanto de manipular os usuários, como também de afetar a esfera política.
A priori, a dificuldade de distinção de boatos deve-se à falta de educação direcionada a esse contexto. A desatualização da metodologia de ensino básico, criada ainda nos moldes da Revolução Industrial, em que prevê a ideia de aplicar o modelo alienante das fábricas no ambiente escolar, evidencia a falta de uma aprendizagem ativa e desconsidera a evolução tecnológica, uma vez que, não aborda questões sobre a responsabilidade na internet. Diante disso, apesar de que, segundo o filósofo René Descartes, a dúvida metódica seja essencial para o alcance de informações verdadeiras, a sociedade, em sua maioria, não está preparada para desenvolver essa postura cética acerca da checagem de notícias na rede, o que estimula o compartilhamento de mentiras.
Dessa forma, tendo em vista a capacidade dos veículos em selecionar vocábulos e imagens alarmantes, são capazes de manipular indivíduos e fazê-los acreditar em conteúdos infundados, a fim de atingir maior número de visualizações e, consequentemente, objetivos políticos e econômicos. Nesse cenário, a disseminação de tais boatos é utilizada como ferramenta de interesse próprio para prejudicar a imagem de figuras públicas, o que converge com a neutralidade axiológica prevista pelo sociólogo Émile Durkheim, em que defende a produção de informações como algo imparcial. Com efeito, ações desse caráter podem conduzir à mudanças em resultados de eleições e ao aumento do discurso de ódio nas redes, que segundo a revista BBC News, triplicaram nas últimas votações no Brasil. Logo, percebe-se a gravidade dos prejuízos causados por esse espalhamento.
Portanto, conclui-se que os riscos do compartilhamento de boatos possuem relação com a ineficiência educacional, e podem afetar a esfera política. Para ameninzar esse cenário, é justo que o Ministério da Educação atualize a Base Comum Curricular, mediante a inclusão de disciplinas com debates acerca da responsabilidade na internet, a fim de desenvolver uma postura crítica e cética nos indivíduos, de modo que, além de colocar em prática a dúvida metódica de Descartes, também consigam averiguar a veracidade de informações e evitar que espalhem notícias infundadas. Assim, deixará de alimentar os interesses particulares desses veículos.