Riscos de compartilhar mentiras e boatos na internet
Enviada em 22/10/2020
A disseminação de notícias falsas não se configura como um fenômeno novo na história da humanidade. A ascensão do regime nazista e o holocausto, a título de exemplo, se calcaram numa intensa manipulação midiática para obter o apoio da população na cruzada contra os judeus. No entanto, o recente surgimento das redes sociais elevou tal fenômeno a outro patamar, devido à incomparável velocidade, alcance e anonimato característicos da era da internet. Nesse sentido, o compartilhamento de informações duvidosas tem despontado como uma ameaça de contornos sociais preocupantes, com o potencial de comprometer a saúde pública e a democracia de maneira inédita.
Em primeira análise, se faz imperioso chamar a atenção para boatos relacionadas à ciência de modo geral e, sobretudo, à medicina. Charlatões e comunidades negacionistas disseminam nas redes sociais conteúdos sem comprovação científica que põe em risco a saúde daqueles que são ludibriados - tal qual o rumor que apontava um verme como causa do autismo e instruía que este deveria ser combatido pela ingestão de um composto químico corrosivo proibido pela Anvisa. Porém, além do potencial de causar estragos pontuais, esse movimento suscita o fortalecimento de levantes anti-ciência, como o contra a vacinação, pondo risco a saúde pública.
Outrossim, com o escândalo envolvendo uma empresa inglesa de dados e o facebook nas eleições estadunidenses de 2016 (que cunhou no debate público internacional o termo “fake news”), foi possível observar como a manipulação dos usuários de redes sociais, a partir do disparo em massa de informações falsas, é capaz de driblar o processo democrático e interferir de maneira crucial até nos rumos da política do país mais poderoso do mundo. Assim, tal episódio demonstrou que o compartilhamento de boatos é capaz de afetar as relações internacionais de maneira global.
Constata-se, portanto, que o compartilhamento de informações inverídicas não é apenas um comportamento reprovável na esfera individual, mas uma problemática cujo combate deve ser de interesse público. A tendência para as próximas gerações é a de que a internet impacte cada vez mais na vida humana, por isso, a educação básica deve ter papel fundamental na busca de conscientizar o povo para o futuro. Segundo o filósofo Kant, o homem é o que a educação faz dele. Nesse sentido, este é um compromisso que deve ser assumido pelo MEC, tornando obrigatório que as escolas incluam no currículo o treinamento dos alunos a fim de cultivar um olhar crítico em relação às notícias que recebem online. O ensino do método científico e da lógica filosófica, por sua vez, são ferramentas fundamentais que auxiliam no desenvolvimento de um crivo cético básico para todo o tipo de informação, criando uma cultura de questionamento desde cedo.