Romantização de relacionamentos abusivos em séries e filmes populares
Enviada em 21/10/2024
O conceito “Cidadanias Mutiladas”, do geógrafo brasileiro Milton Santos, explicita que a democracia só é efetiva à medida que atinge a totalidade do corpo civil. No entanto, o que se observa, na conjuntura hodierna, é o opsosto desse ideal democrático, uma vez que a romantização de relacionamentos abusivos em obras cinematográficas distancia a nação dos direitos constitucionalmente garantidos. Nesse viés, torna-se crucial analisar os principais propulsores dessa problemática: a falta de criticidade e a morosidade estatal.
Diante desse cenário, a ausência do pensamento crítico potencializa os casos de idealização de relações abusivas nas telinhas. A respeito disso, Tarsila do Amaral, em sua obra “Abaporu”, denuncia a atrofia da capacidade questionadora do povo brasileiro. Analogamente, a situação do país verde-amarelo se relaciona com a denúncia da artista brasileira, haja vista o aumento da irracionalidade social frente à exposição de relacionamentos tóxicos em ambientes fictícios. Com efeito, há a distorção do que se enquadra como espelho de um relacionamento saudável por parte do público, o que promove a normalização de comportamento agressivos.
Ademais, é imperativo pontuar a ineficácia do Poder Público como promotor do problema. Nesse sentido, a Constituição Cidadã — promulgada em 1988 — prevê, em seu artigo 215, o direito à cultura como inerente a todo cidadão brasileiro. Todavia, tal prerrogativa não tem se reverberado na prática, dado que muitos brasileiros estão distantes de vivenciar o benefício previsto pela Carta Magna, sobretudo por conta da inexistência de políticas púlbicas, como é o caso de campanhas socioeducativas contra a naturalização de relações tóxicas em séries e filmes. Desse modo, enquanto a inoperância do Estado se mantiver, o Brasil será obrigada a conviver com esse quadro deletério.
Portanto, são necessárias medidas que venham mitigar o estorvo. Para isso, o Ministério da Educação — entidade responsável pelas diretrizes educacionais — deve, por meio verbas, financiar a realização de projetos pedagógicos, como palestras e rodas de conversa. Tal programa terá a finalidade de romper a inércia dos setores governamentais, bem como reverter ideias retrógadas, já que o aprendizado é capaz de ultrapassar os muros das instituições escolares.