Romantização de relacionamentos abusivos em séries e filmes populares

Enviada em 26/10/2024

A Constituição Federal de 1988 foi esboçada com o objetivo de delinear direitos básicos à população — como o da dignidade humana. Contudo, hodiernamente, tal postulado é deturpado mediante a romantização de relacionamentos abusivos em séries e filmes populares, que afeta a compreensão de relações sustentáveis, no Brasil. Acerca disso, para se discutir de maneira mais ampla, hão de ser analisadas a inércia estatal e a ausência de debates.

A priori, a omissão governamental fomenta a normalização de relações tóxicas ilustradas pelo cinema. Nesse sentido, conforme o contratualista Thomas Hobbes, é dever do Estado garantir as medidas necessárias para o bem-estar dos cidadãos. No entanto, essa premissa não tem ocorrido, em razão da carência de políticas públicas capazes de instruir as pessoas a se relacionarem de forma saudável, não refém das representações oferecidas pela mídia. Como exemplo, a implantação de programas que ofertem educação de inteligência emocional, abordando o tema, nas escolas e universidades públicas. Assim, a falta de ações governamentais intensifica essa desinformação.

Ademais, o impacto das produções cinematográficas na sociedade também ocorre devido ao silenciamento. Sob essa ótica, a filósofa brasileira Djamila Ribeiro afirma que para se intervir em uma situação, antes, é preciso tirá-la da invisibilidade. Não obstante, o cenário nacional destoa desse pensamento, haja vista que a falta de discussões sobre padrões de boas relações perpetua a alienação da visão de enredos de cinema como representações irreais. Dessa forma, enquanto essa nebulosidade ocorrer, o Brasil continuará enfrentando uma das maiores questões do consumo de entretenimento: a adoção de interpretações distorcidas.

Portanto, urge intervir nessa situação. Logo, cabe ao Estado, instituição estabelecida para exercer poder político sobre o corpo social, sensibilizar as pessoas sobre o entendimento correto das representações cinematográficas. Fará isso por meio da criação do programa “Cultura Produtiva”, que será responsável por ministrar palestras educativas nas instituições de ensino, a fim de que o direito prometido na Constituição seja efetivamente ofertado.