Saúde mental e a importância da cultura do autocuidado
Enviada em 28/07/2020
Em “O ser e o tempo”, o filósofo alemão, Heidegger defende que a humanidade perdeu, em algum momento, o interesse pela própria subjetividade. No entanto, percebe-se na pós-modernidade uma retomada gradual dessas discussões - das quais são tópicos a saúde mental e a cultura do autocuidado. Isso se deve à crise identitária vivenciada pelo mundo ocidental na era pós-industrial. Assim, há fatores que a ampliaram, como a globalização capitalista e o fim da Guerra Fria.
Dessa maneira, é importante destacar que o ritmo da globalização capitalista amplifica a crise de identidade em questão. Isso porque as grandes marcas multinacionais - motivadas unicamente pelo lucro - atropelam as culturas locais. Consequentemente, há uma uniformização forçada de costumes, o que potencializa a instabilidade das populações afetadas. Exemplifica essa dinâmica o fato da rede “Mc’Donalds” estar presente em mais de cento e vinte países em todo o mundo, segundo a OMC.
Além disso, não deve-se esquecer que o fim da Guerra Fria - personificado na queda do Muro de Berlim - também catalisa o colapso identitário. Essa relação se dá porque, na Guerra Fria, haviam duas ideologias contrastantes e diametralmente opostas. De certa maneira, essas ideologias funcionavam como fatores de coesão social e identificação cultural. Após o fim dessa bipolaridade, ruíram também as narrativas que a sustentavam. Ilustra isso a pesquisa feita pela UNESCO, em 1991, na Alemanha Oriental, a qual indicou que 52% dos alemães orientais entrevistados não se sentiam pertencentes a uma unidade cultural alemã.
Portanto, é nítido, nesses dois cenários intrínsecos, que o progresso técnico-científico, imposto pela modernidade industrial, escanteou as discussões acerca da subjetividade humana, dos sentimentos e da existência. No entanto, não foram suprimidas - apenas vieram a incomodar um curto período de tempo após o êxtase industrializante.
Dessa maneira, é indispensável que, diante essa tensão identitária, as pessoas se voltem ao que Heidegger julgou prioritário: a própria subjetividade. Para isso, é fundamental que o Ministério da Educação, juntamente com a sociedade civil organizada, proponha uma alteração da BNCC para adicionar disciplinas e atividades que estimulem os alunos a pensarem criticamente a respeito das suas próprias identidades, tais como seus costumes comuns, suas diferenças e, principalmente, seus sentimentos. Além disso, o Conselho Federal de Psicologia deve abrir concursos públicos para selecionar filmes curta-metragem sobre a importância do autocuidado e da saúde mental nos tempos atuais, para que seja exibido em escolas públicas e privadas. Somente assim que a sociedade poderá reconquistar o interesse perdido em sua própria subjetividade, como postulou Heidegger.