Saúde mental e a importância da cultura do autocuidado

Enviada em 02/01/2021

Epicuro de Samos, filósofo grego do século IV antes de Cristo, pregava o equilíbrio entre o corpo e o espírito como forma de atingir a ataraxia - paz interior que gera máxima felicidade. Contudo, no atual contexto de busca frenética por melhores resultados na vida social e profissional, observa-se que esse importante ideal filosófico, promotor de saúde mental e do autocuidado, é pouco praticado pelos indivíduos no Brasil e no mundo. Tal realidade parece efeito do estilo de vida capitalista contemporâneo, bem como da escassez de diálogo sobre essa temática na sociedade.

Em primeira análise, é preciso ponderar o hodierno apego às conquistas sociais e materiais para a manutenção dessa conjuntura. Para Byung Chul-Han, sociólogo sul-coreano, em sua obra “Sociedade do Cansaço”, a procura por desempelhos de excelência resulta no desgaste psicológico das pessoas. Assim, não é supresa que, no cenário capitalista moderno de estímulo ao consumo de produtos e de bons resultados sociais e profissionais, ocorra, com frequência, o abandono das ações que geram saúde mental e o autocuidado. Nesse contexto, a prática de atividade física regular, uma alimentação saudável, e, ainda, o cultivo das amizades - um dos princípios produtores da felicidade, segundo Epicuro - são negligenciados em nome do “sucesso”. Como resultado, forma-se uma população com desequilíbrios psicológicos, exausta ante a sua própria exploração, o que corrobora com o sociólogo.

Outrossim, a escassez de debate sobre a saúde psíquica agrava esse quadro. De acordo com Michael Foucault, filósofo francês, em seu livro “A História da Loucura”, as doenças mentais foram sempre ignoradas pelo Estado e pela Sociedade ao longo do tempo. Nessa perspectiva, é evidente que a falta de espaços de diálogo, nas mídias e nas escolas, sobre a importância da higidez psicológica  permite a manutenção de seu descaso histórico apontado por Foucault. Isso compromete a instrução social quanto aos hábitos promotores da homeostase - equilíbrio - corporal, o que pode estimular a negligência com a própria saúde no cenário consumista atual.

Dessa forma, é mister que o Estado Brasileiro tome medidas diligentes para impelir a consciência coletiva quanto a importância da saúde mental e da cultura do autocuidado. Destarte, o Ministério da Saúde, em parceria com o Ministério da Educação, deve estimular a população a adotar hábitos que geram maior equilíbrio físico e mental. Isso deve ser realizado por meio de campanhas publicitárias televisivas e nas redes sociais e por rodas de conversas nas escolas ministradas por profissinais de saúde que informem as ações promotoras de saúde psíquica e do cuidado com o próprio corpo, a exemplo da meditação e do lazer com os amigos. Assim, poderar-se-á estimular o cultivo à saúde e à busca pela ataraxia proposta por Epicuro no cenário capitalista contemporâneo.