Saúde mental e a importância da cultura do autocuidado
Enviada em 04/09/2020
O filme “Coringa”, publicado em 2019, narra a história do protagonista Arthur Fleck e dos problemas psicológicos que enfrentava que, por ter demasiadas preocupações financeiras sendo deixado de lado pela sociedade, culminaram em uma vida criminosa. Embora alegórica, a crítica presente no filme traduz a realidade de muitos brasileiros que são forçados a se preocupar exageradamente com outras áreas da vida e não se importam consigo mesmos e, quando se importam ainda enfrentam empecilhos de acessibilidade a tratamentos e cuidados com a saúde da mente.
Primeiramente, destaca-se que a falta de tempo para o autocuidado não surgiu espontaneamente, pelo contrário, desde a Primeira Revolução Industrial a classe trabalhadora é explorada ao limite visando maximizar a a eficiência da produção para o empregador. Como resultado, o tempo se torna muito restrito para que o trabalhador se preocupe consigo e os resultados na sociedade são evidentes, como comprova a Organização Mundial da Saúde (OMS) que apontou em 2019 que 47% das pessoas em idade adulta no Brasil não pratica atividades físicas e 5,8% da população brasileira, o que equivale a 12 milhões de pessoas, sofre de depressão. A cultura do autocuidado é necessária mas para que a mesma seja difundida na sociedade a mudança deve partir não apenas da vítima dos problemas, como também do causador dos mesmos.
Em segunda análise, cabe ressalvar que a priorização excessiva do trabalho não é a única adversidade enfrentada pela população nessa problemática, pois o indivíduo que identifica a necessidade de cuidar de si mesmo muitas vezes tem de enfrentar a falta de acessibilidade a tratamentos psicológicos por conta do atendimento precário fornecido pelo Sistema Único de Saúde. Segundo a Doutora Margaret E Kruk, “O cuidado de qualidade não deve ser um privilégio da elite ou uma aspiração para um futuro distante. Deve ser o DNA de todos os sistemas de saúde”. Assim como o ocorrido com Arthur que teve seus problemas subestimados pelo Sistema de Saúde, a população carece de uma disponibilidade maior de tratamentos e cuidados psicológicos para poder por em prática a manutenção da vida e do bem-estar.
Diante dos argumentos supracitados, é evidente que uma mudança faz-se necessária por meio de uma ação conjunta dos Ministérios do Trabalho e Saúde para que fiscalizem a condição dos empregados em seus locais de ofício assim como o estado e disposição dos Postos de Saúde para atende-los. Tal fiscalização deve ser feita por meio de licitações para que empresas contratem médicos do trabalho e acompanhem a condição de seus colaboradores. Tornando assim o autocuidado algo mais acessível para a população e evitando consequências maiores como na vida de Arthur Fleck.