Saúde mental e a importância da cultura do autocuidado
Enviada em 04/09/2020
Belchior, em sua música “Sujeito de Sorte”, assume um eu-lírico que, em sua trajetória de sofrimento, assemelha-se a muitos cidadãos que enfrentam um desequilíbrio psicológico. Contudo, da mesma forma que o cantor supera seu status quo ao decidir zelar por si, se adotados hábitos de autocuidado haverá reflexos positivos na saúde pública, e é, para isso, necessário democratizá-los e garantir a assistência da saúde mental para a população.
Sabe-se que, de acordo com Zygmunt Bauman, em um mundo globalizado tudo o que fazemos tem impacto na vida de outros entes. Dessa forma, o cuidado pessoal do corpo pode evitar doenças que hoje superlotam hospitais e sobrecarregam a atenção básica de saúde, de modo a beneficiar outros cidadãos. Nesse sentido, uma pesquisa realizada pela Universidade de Brasília aponta que uma parte significativa da verba destinada ao SUS é usada no tratamento de doenças que seriam evitadas com a prática de exercícios físicos e alimentação adequada. Infere-se, assim, que os benefícios de manter uma rotina de autocuidado alcançam a esfera pública. Outrossim, é importante considerar que não apenas patologias físicas obstem o bem-estar, pelo contrário, transtornos psicológicos também afetam a homeostasia de um indivíduo. Além disso, de acordo com a psicóloga Janice Fachini, o desequilíbrio emocional expresso em uma baixa autoestima faz com que uma cultura de autocuidado seja cerceada, o que causa efeitos negativos ao físico e ao mental.
Constata-se, ainda, que mesmo intrínseca ao bom funcionamento do corpo, a saúde mental é inacessível para uma parcela considerável da população. Desse modo, de acordo com a OMS, a saúde possui determinantes sociais e é impactada pelas condições de vida das pessoas. Por conseguinte, as classes sociais pouco favorecidas têm menos acesso a um atendimento psicológico de qualidade, o que se opõe ao direito ao bem-estar previsto na Constituição Brasileira. Por isso, iniciativas como a estratégia Saúde da Família, que buscam o atendimento integral e equânime na atenção básica, devem ser fortalecidas e levadas ao conhecimento público. Ademais, de acordo com a Associação Brasileira de Psiquiatria, o estigma que cerca transtornos psicológicos impede o tratamento, pois, doenças como depressão e ansiedade são banalizadas ou associadas à loucura, devido a falta de informação.
Dado o exposto, portanto, cabe ao Ministério da Saúde, junto ao setor privado, elaborar uma campanha informativa por meio das redes sociais, para que a população entenda a necessidade do autocuidado do corpo e da saúde mental. Finalmente, nessa campanha deve-se divulgar as iniciativas a que o público pode ter acesso para assistir aos seus direitos, a fim de que não se torne preciso ser um “Sujeito de Sorte” para que o ente tenha o bem-estar garantido.