Saúde mental e a importância da cultura do autocuidado

Enviada em 27/10/2020

O livro “O Alienista”, de Machado de Assis, conta a história de Simão Bacamarte, um psiquiatra que, com seus conhecimentos adquiridos na Europa, muda-se para Itaguaí no Rio de Janeiro com a pretensão de avaliar o comportamento dos moradores, e encaminha para seu hospício chamado Casa Verde todos aqueles que possuem qualquer desvio de normalidade. Com a maior parte da vila aprisionada, gera-se a reflexão sobre o que é, de fato, uma mente sã. Como na obra machadiana, a saúde mental na contemporaneidade tem seu sentido deturpado, e tal qual o autocuidado, é negligenciada em decorrência da falta de conhecimento adequado e do modo de vida altamente mecanizado.

É necessário entender como uma sociedade munida de facilidades no que diz respeito a obtenção de informação, ainda comete equívocos tão nocivos quanto os da narrativa de Machado, escrita no século XIX. Esse paradoxo acontece porque, embora a abordagem sobre a saúde da mente seja feita, esta acontece majoritariamente nas redes sociais por fontes não especializadas. Dessa forma, a busca pela qualidade emocional é comumente associada e restrita aos casos patológicos, o que cria a falsa sensação de que a ausência de doenças ou distúrbios graves equivale a um funcionamento mental sadio e livre da necessidade de cuidados.

Além do esclarecimento escasso da população, existe a ideia de que o papel social e a funcionalidade devem ser priorizados em detrimento do bem-estar individual. Essa objetificação humana advém da cultura que enaltece a produção intensificada, seja ela material ou não. Assim, o autocuidado só é validado quando afeta a saúde física e consequentemente o potencial produtivo. Desse modo, a procura por bem-estar é entendida como supérflua, e aqueles que o fazem são vistos como ociosos ou até mesmo fadados a viver longe da sociedade, semelhante aos pacientes de Bacamarte. Isso gera prejuízos ao emocional e contribuí com o desenvolvimento de distúrbios psicológicos que comprometem a qualidade de vida.

Portanto, evidencia-se a importância de incentivar o autocuidado e promover o aumento da saúde mental na população. O Ministério da Saúde deve criar programas que visem ampliar o alcance de profissionais da saúde mental no SUS, além de, em conjunto com a prefeitura, elaborar workshops nas escolas municipais para  a comunidade, a fim de esclarecer sobre os aspectos afetados pela falta de inteligência emocional, o papel das aulas educação física no suporte mental, e a necessidade de adicionar cuidados pessoais a rotina. Com isso, será possível aumentar a aplicação de mecanismos capazes de melhorar a qualidade de vida e que são fundamentais para o desenvolvimento humano.