Saúde mental e a importância da cultura do autocuidado
Enviada em 30/11/2020
À medida que aumenta a divisão de tarefas na sociedade moderna, cresce tanto a interdependência entre as pessoas quanto a importância de formar grande número de inter-relações. Para isso, os seres humanos persuadem uns aos outros por meio das aparências, ao passo que descuidam da própria interioridade. Essa desvalorização do invisível causa disforia generalizada, principalmente quando combinada à tradição ocidental de que riqueza implica felicidade. O cuidado próprio, capaz de impedir esse mal, nem sempre é praticado porque é reputado inconciliável com as demandas sociais.
Em primeiro lugar, o mal-estar contemporâneo é consequência direta das exigências às quais a população está sujeita: na contratação de funcionários, nos vestibulares e nas relações amorosas dá-se preferência aos mais bem-educados, aos diligentes e aos de melhor aparência. Essas qualidades são evidentes, diferentemente dos estados mentais, que são passíveis de dissimulação. Como esses não são regulados socialmente, acabam negligenciados. Além disso, o cuidado próprio necessário para promover a serenidade envolve atividades como o lazer que, no entanto, é considerado contraproducente, visto que o tempo e a atenção nele investidos ficam indisponíveis para o progresso do visível. Assim, o bem-estar é desfavorecido em uma sociedade que só valoriza o que pode ver.
Ademais, a falta de cuidado próprio e o desleixo com os valores interiores estão, há séculos, intrinsecamente ligados à cultura ocidental. Nesse hemisfério, no qual se herdou a mentalidade capitalista protestante e o pragmatismo romano, a finalidade de toda ação é o enriquecimento e o empoderamento, pois crê-se que deles decorre a felicidade. Isso se revela nas taxas de ansiedade observadas: de acordo com a Organização Mundial da Saúde, 9,8% dos brasileiros sofrem de transtorno de ansiedade. Por outro lado, em países de cultura hindu ou budista, como a Índia e a Mongólia, as taxas não superam 3,3%. Essa diferença evidencia a disparidade da importância atribuída ao autocuidado, visto que, no oriente, acredita-se que a felicidade é advinda da paz interior e que esta pode ser treinada por meio da meditação.
Portanto, para fomentar a euforia e o cuidado próprio na cultura ocidental, deve-se recompensá-los. Para tal, os empregadores e as comissões de seleção de concursos públicos e vestibulares precisam exigir avaliações psicológicas como parte de seus processos seletivos. Além disso, os poderes executivos municipais devem emitir certificados, renovados periodicamente, que as empresas podem exibir, atestando a saúde mental de seus empregados. Desse modo, os consumidores favorecerão estabelecimentos mais responsáveis com os funcionários. Estes, por sua vez, têm incentivo para desenvolver autocuidado, pois disso dependem suas oportunidades e, no ocidente, sua felicidade.