Saúde mental e a importância da cultura do autocuidado
Enviada em 08/11/2020
O livro “O Alienista”, de Machado de Assis, conta a história de Simão Bacamarte, um psiquiatra que, estudado na Europa, muda-se para Itaguaí, no Rio de Janeiro, a fim de tratar aqueles que exibissem qualquer desvio de normalidade. Assim, o médico encaminha mais da metade da população local para seu hospício, Casa Verde, gerando uma reflexão sobre o que é, de fato, uma mente sã. Embora seja parte de um contexto histórico diferente, a ficção machadiana se faz atual, já que a saúde mental na contemporaneidade tem seu sentido deturpado e tal qual o autocuidado, é negligenciada em decorrência do modo de vida altamente mecanizado e da falta de políticas adequadas.
Em primeira análise, é necessário entender como a lógica imediatista contribui diretamente com a problemática. Isso acontece pois, a existência de uma cultura que enaltece a produção intensificada, faz com que o autocuidado seja compreendido como um sintoma de ociosidade e improdutividade. Assim, a busca por bem-estar equivale, socialmente, a uma banalidade a ser evitada. Essa ausência profilática somada ao ritmo acelerado, resulta em uma maior propensão a distúrbios psicológicos, que, quando percebidos, tendem idealizar soluções rápidas e que preservem a funcionalidade, a fim de afastar a possibilidade de inutilização e de um destino semelhante ao dos pacientes de Bacamarte, afastados do convívio social e de suas realizações pessoais. Esse pensamento, entretanto, ignora o gradualismo dos processos mentais e prejudica a recuperação integral e efetiva do indivíduo.
Somado à objetificação humana, as iniciativas de contenção também se mostram deficitárias na resolução desse impasse. Isso porque, embora os órgãos de saúde tenham demonstrado preocupação com a integridade mental no contexto do COVID-19, as medidas tomadas fora do cenário pandêmico são insuficientes. Essas falhas tem como base tanto a divulgação abaixo do esperado de dados relativos à saúde da mente e de cuidados próprios, quanto o baixo acesso ao tratamento psíquico completo, que contempla o acompanhamento terapêutico junto ao uso farmacológico. Isso, além de demonstrar que há de uma barreira cultural e socioeconômica, tem como consequência o crescente número de casos patológicos no Brasil, que segundo a OMS, é a nação mais ansiosa do mundo.
Portanto, é evidente a necessidade de estimular o autocuidado e promover a saúde mental, evitando equívocos tão nocivos quantos os da obra de Machado, escrita no século XIX. Para isso, urge a criação de programas que visem informar a população em geral. O Ministério da Saúde deve investir em workshops nas escolas de nível fundamental e médio, abertos à comunidade, com dicas de psicólogos e educadores físicos sobre como viver de forma mais benéfica e da importância em buscar ajuda. Assim, será possível reverter esse quadro e garantir o direito constitucional à saúde universal.