Saúde mental e a importância da cultura do autocuidado

Enviada em 14/12/2020

O livro “O Alienista”, de Machado de Assis, conta a história de Simão Bacamarte, um psiquiatra que muda-se para Itaguaí, Rio de Janeiro, a fim de estudar e tratar aqueles que demonstrassem qualquer desvio de normalidade. No entanto, em um cenário de superlotação do hospício local e de revolta popular, a obra faz crítica aos equíviocos sociais e a ineficácia na identificação e tratamento dos acometidos por distúrbios psíquicos. Embora datada do século XIX, a ficção machadiana se faz atual, dado que a busca e manutenção da saúde mental ainda é prejudicada em decorrência do modo de vida altamente mecanizado e de políticas públicas deficitárias.

Em primeira análise, é fundamental entender como a lógica imediatista contrubui para essa problemática. Essa relação acontece, pois, uma vez que o comportamento social é moldado para o uso primordialmente produtivo, as ações que compreendem o autocuidado são reconhecidas como ociosas ou mesmo banalidades a serem evitadas, já que comprometem o período útil do indivíduo. Assim, a negligência  do cuidado próprio gera um ambiente mais propício para o desenvolvimento de patologias e agravamento destas, principalmente em momentos atípicos como os da pandemia de COVID-19, como demonstrado em uma pesquisa do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, em que mais da metade os entrevistados relatou a piora do bem-estar.

Somado ao fator social de objetificação humana, a insuficiência de iniciativas para resolucionar o impasse também é notória. Isso porque, além das dificuldades comuns na garantia da saúde populacional, os desafios aumentam quando se refere a um mal-estar silencioso, como no caso das patologias mentais, que exigem o fornecimento de informações precisas e de tratamentos completos e gradativos. No entanto, o suporte por parte dos órgãos responsáveis converge com o senso comum, haja vista a negligência que impede a resolução do problema. Por conseguinte, a percepção da necessidade de cultivar a qualidade de vida e o bom funcionamento da mente é ofuscada pela desinformação que colabora com o grande número de vítimas da falta de autocuidado. Essa situação caótica se comprova em dados da Organização Mundial da Saúde, que coloca o Brasil como líder entre as nações mais ansiosas do mundo.

Portanto, é evidente a necessidade de frear o quadro atual de equívocos tão nocivos quanto os da narrativa de Machado. Logo, o Ministério da Saúde, em conjunto com as prefeituras, deve por meio de workshops itinerantes realizados por profissionais qualificados, em praças e parques, esclarecer e interagir com a comunidade sobre saúde mental e alternativas para manutenção desta, a fim de reduzir os casos de transtorno psicológico e promover um pensamento mais acolhedor na sociedade.