Saúde mental e a importância da cultura do autocuidado
Enviada em 14/11/2020
A Constituição Federal, promulgada em 1988, assegura aos brasileiros e estrangeiros residentes no país garantias fundamentais, dentre elas o direito à saúde. No entanto, no que concerne ao bem-estar mental, nota-se que as normas presentes na Carta Magna não são eficientes, visto que o Ministério da Saúde afirma que em 2019 houve um aumento de 7% nas taxas de suicídio em comparação ao ano anterior. Esse cenário ocorre em razão da ausência de debate sobre o assunto em conjunto com a dificuldade de se ter autocuidado. Logo, faz-se necessário discutir tais fatores, a fim de que se possa solucioná-los de maneira eficaz.
Em primeira análise, é fato que o silenciamento acerca da temática contribui para a existência da questão. Segundo pesquisa divulgada pelo jornal O Globo, em 2018, 79% dos entrevistados preferem não comentar com outras pessoas sobre seu estado mental por medo de serem criticados. Isso ocorre porque há uma cultura presente na sociedade que dita a depressão como sinônimo de frescura e, na maioria das vezes, as vítimas são tratadas com descaso pela família e, ao sentirem desacreditadas, preferem calar-se. De acordo com a psicóloga Gyovana Chimello, a associação de problemas psicológicos com falta de vontade é comum, uma vez que não há uma discussão clara na população a respeito da psique humana e os indivíduos colocam como doença somente sintomas físicos. Por fim, há um aumento na quantidade de enfermos que encontra no suicídio uma forma de se livrarem da dor.
Ademais, a falta de autocuidado corrobora para a permanência do problema. No filme brasileiro “De Pernas pro Ar”, no qual a empresária Alice coloca o trabalho como prioridade com o pretexto que ter um emprego é mais importante que dormir e alimentar-se bem. Paralelamente, esse é o contexto de muitos brasileiros: deixam de lado o bem-estar na tentativa de mostrar uma imagem social de sucesso e felicidade. Conforme a Organização Mundial de Saúde, 90% das pessoas que mostram uma boa vida nas redes sociais, na verdade, são amarguradas e usam esse meio com o objetivo de criar um reflexo da vida que queriam ter. Assim, cria-se um autoengano e, posteriormente, frustação.
Portanto, medidas são necessárias a fim de amenizar o quadro atual. Com o intuito de mitigar os problemas mentais presentes na sociedade, é mister que o Ministério da Saúde crie, por meio de verbas governamentais, campanhas nas redes sociais que estimule sobre o debate acerca de questões mentais, o que pode ser feito por intermédio de salas virtuais. Simultaneamente, deve inserir profissionais – psicólogos e psiquiatras – nas Unidades Básicas de Saúde, com o propósito de facilitar o acesso da população à um tratamento psicológico. Somente assim, os direitos previstos na Constituição Federal serão, de fato, assegurados.