Saúde mental e a importância da cultura do autocuidado

Enviada em 24/04/2021

No quadro " O grito", do artista plástico Edvard Munch, é evidente a sinuosidade, sofrimento e tormento da personagem principal, que ocupa o centro do quadro, sobre uma ponte. No canto superior esquerdo, é possível visualizar suas figuras humanas, indiferentes ao grito e angústia alheia. Na contemporaneidade, o grito das crianças e adolescentes ecoa pela sociedade brasileira e, no entanto, ninguém o ouve, haja vista o descaso com a saúde mental desses jovens, por uma negligência cultural com a saúde psíquica e uma estigmatização das doenças mentais. Faz-se, dessa forma, imperativo a atenção governamental para o incentivo ao autocuidado dos infantes.

Em primeiro plano, é intrínseco ressaltar o histórico e cultural preconceito que permeia a sociedade brasileira acerca das desordens psíquicas. Nessa ótica, tal abordagem manifestou-se, ao longo do tempo, na exclusão de indivíduos considerados fora do padrão comportamental imposto na época, onde tais pessoas eram estigmatizadas como “loucas”. Os desdobramentos de tal perspectiva são avassaladores, tal como ocorreu na tragédia do Hospital Colônia Barbacena, palco de atrocidades  como tortura, eletrocutamento e até assassinatos de pessoas que passaram por tal instituição psiquiátrica.

Nessa abordagem, devido ao descaso cultural supracitado, o poder público tende a não dar a devida atenção necessária aos cuidados mentais, o que atrapalha todo o processo de desenvolvimento identitário juvenil. De acordo com filósofo John Locke, todo processo de aprendizagem e desenvolvimento cognitivo se dá, em sua analogia, por meio de uma tábula rasa, em que conforme os indivíduos passam por situações, suas experiências são assimiladas, formando a identidade da pessoa. Dessa forma, a inação com a saúde mental deste público leva aos altos índices de ansiedade, depressão e manifestações psicossomáticas, o que impacta diretamente no desempenho educacional e pessoal desses jovens. Isso é corroborado pelos dados da Organização Mundial da Saúde, em que um em cada seis indivíduos, com idade entre 10 e 19 anos, sofre de doenças mentais.

Faz-se, dessa forma, urgente a adoção de medidas, pelo Congresso Nacional, para incentivar o autocuidado dos jovens e mitigar as desordens psíquicas. Assim, tal órgão deve elaborar uma lei tornando obrigatória a contratação integral de psicólogos pelas escolas estaduais, municipais e privadas em todo território nacional. Tal lei terá como foco a saúde mental dos infantes, por meio do acompanhamento psicológico, durante toda a fase escolar, dos jovens do Ensino Fundamental e Ensino Médio. Somente dessa forma, será possível atenuar o sofrimento das crianças e adolescentes, cujo grito pede por ajuda.