Saúde mental e a importância da cultura do autocuidado

Enviada em 29/08/2022

No romance “Triste fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto, o quixotesco personagem, que intitula o livro, cria ilusões em relação à pátria, o que o conduz a sua infelicidade. Fora da ficção, a história se repete no Brasil, e, provavelmente, a despreocupação com a saúde mental seria outro fator que contribuiria para as decepções do protagonista. Nesse prisma, é importante analisar a mentalidade individualista e a negligência do Estado que envolvem tal mazela no país.

Nesse contexto, nota-se como a mentalidade individualista influi decisivamente no descaso com a saúde mental. Isso pode ser observado no grafite “Pintura de um monóculo”, de Klister-Peter, que critica a sociedade por meio da frase: “Eu vejo humanos, mas não humanidade”, a qual reforça que, apesar de serem vistos indivíduos pelo viés biológico, não é possível enxergar uma coletividade sociologicamente coesa. De forma análoga, tal pensamento compara-se à realidade brasileira, visto que a coesão entre os cidadãos é marcada por um comportamento egocêntrico que ignora necessidades fundamentais, como a saúde mental.

Ademais, observa-se que a omissão estatal é uma forte impulsionadora da desatenção com a saúde mental. Segundo o filósofo contratualista Thomas Hobbes, o cidadão deve transferir o seu poder ao Estado para que ele mantenha o domínio sobre a condição natural humana. No entanto, a realidade do país impõe o contrário, uma vez que, diante da inoperância dos líderes governamentais, o cidadão é obrigado a encontrar a solução dos problemas, ou a conviver com as dificuldades, fato que ocorre, principalmente, em um contexto de aumento de casos de depressão e suicídios.

Nesse sentido, cabe ao Ministério da Educação propor uma reforma escolar, por meio de um projeto educacional que transforme a percepção dos estudantes sobre a saúde mental. Tal remodelação deve conter uma mudança na grade curricular, englobando matérias de cunho social, como ética e política, a fim de o cidadão, desde cedo, ser capaz de ver o outro e romper com a mentalidade individualista e, ao passo que aprende seus direitos, exigir das autoridades o cumprimento do contrato social. Assim o país estará mais próximo do ideal de Hobbes para a democracia e dos anseios de Policarpo Quaresma.