Segregação das classes sociais no Brasil (Adaptado da FUVEST 2015)
Enviada em 15/05/2020
Para Marx, os motores de toda a história da humanidade são as lutas de classe. Essas diversas camadas sociais, por sua vez, divergem-se a partir de distintas formas de convívio e realidade. Na França aristocrática, pré-revolução francesa, por exemplo, havia dois modos de vestimenta que diferenciavam os aristocráticos daqueles que não possuíam terras (os sans-culottes). No Brasil, a dicotomia estabelece-se pela garantia, a partir da compra, por estilos de vida que demonstrem superioridade, como locais com vantagens exclusivas ou facilidades em relação aos outros. Porém, essa dinâmica contrasta com o estabelecimento da plenitude de direitos assegurados pela democracia, que não pressupõe a segregação de classes.
Em princípio, as constantes privatizações da vida pública impossibilitam que a sociedade possa ter conhecimento da multiplicidade de vivências existentes. Para o filósofo Michael Sandel, esse processo é conhecido como “camarotização” e ele vai desde de situações mais simples, como uma partida de jogo e outras diversas atividades de lazer, até momentos mais complexos, relacionados a instituições de ensino, saúde e moradia. Assim sendo, o encontro é restrito a pessoas de mesmo convívio, o que, para Sandel, elimina o reconhecimento de diversidade social e, portanto, é prejudicial a democracia. No Brasil, esse fenômeno é ainda mais fomentado, tendo em vista a recente superação de formas de governo que pressupõem alta hierarquia, como a ditadura militar, que se findou há menos de 40 anos.
Essa dinâmica, em consonância, corrompe o ideal de vontade geral de Rousseau, em que a coletividade deve prezar pelo interesse comum, sendo essa prática, em primeiro lugar, estritamente obrigatória, já que a teoria pressupõe um Estado de deveres e não apenas de direitos, como a de Locke. Isso acontece porque, para a teoria rousseauniana, os indivíduos devem conviver entre si para que seja possível entender as necessidades do outro, e, dessa forma, votar de forma a promover maior amplitude de direitos. Na república brasileira, porém, a segregação entre as classes se amplia gradativamente desde o êxodo rural, tento em vista que houve o distanciamento visual a partir da regionalização da cidade, e, consequentemente, o afastamento entre os grupos.
Por fim, a segregação de classes no Brasil afeta a noção de cidadania entre as pessoas no país e a sua superação depende da ação incisiva de órgãos públicos. Primeiramente, uma iniciativa a ser tomada é a partir do fomento da qualidade dos serviços da esfera pública, desde os essenciais, como escola e hospitais, até as atividades de lazer e transporte, para que, isto posto, a população não veja a necessidade de buscar por serviços privados, pois todos utilizarão o mesmo espaço comum. Por fim, a cobrança excessiva por serviços exclusivos deve ser limitada, para conter camarotização da sociedade.