Segregação das classes sociais no Brasil (Adaptado da FUVEST 2015)

Enviada em 10/05/2020

Qual a distância que separa um camarote da pista comum? Alguns metros no sentido literal. Mas no sentido figurado, a distância pode ser um abismo. A camarotização da sociedade trás consigo a promessa de exclusividade, de diferenciação. Esse modelo hegemônico de distinção é pervasivo e trás consigo a desigualdade e a segregação.

Ao observarmos a estruturação das sociedades judaico-cristãs ocidentais, percebemos que os valores morais eram mais importantes que os valores monetários, ou seja, que o ser era melhor que o ter. Com o surgimento da sociedade capitalista a partir da Primeira Revolução Industrial, passou-se a acreditar que o ter era mais importante que o ser, e se observarmos a sociedade atual, percebemos que o ter não importa mais tanto, e sim o parecer. A cultura da imagem predomina nas redes sociais, em uma sociedade espetáculo onde não basta ter o poder de consumo, é preciso mostrar que o possui. Como consequência disso, a frustração de não se enquadrar no padrão de vida de poucos expõem as desigualdades vividas na sociedade atual.

Além disso, as pessoas com poder aquisitivo querem manter certos privilégios pois não os entendem como tal, mas sim como consequência de mérito. Esse processo leva a uma segregação, a uma negação do outro, da convivência com ele. A mercantilização de tudo levou ricos e pobres a terem vidas cada vez mais distintas e separadas, fazendo com que vivamos em uma espécie de apartheid econômico e social, com lugares destinados a cada classe social, onde a mobilidade até é permitida, mas somente ao atingir padrões altíssimos e cada vez mais inatingíveis para classes menos abastadas. Outro que é de fundamental importância é que pessoas de contextos e posições sociais diferentes se encontrem e convivam, visto que é assim que aprendemos a respeitas as diferenças, uma vez que aos olhos do capital, é praticamente impossível tornar todos absolutamente iguais.

Tendo em vista isso, uma das formas mais democráticas desse encontro acontecer é através da educação, onde, em situação escolar, por exemplo, crianças e adolescentes de diversos estratos sociais podem ter contato direto e trocar experiências socioculturais que não seriam possíveis em ambientes segregados com base em poder aquisitivo. Outra medida que cabe também, são políticas sociais que forneçam melhores condições de acesso a educação profissionalizante para as classes menos abastadas, uma vez que o ensino também é capitalizado, indo de encontro ao que Amartya Sen expressa ao falar que “a pobreza deve ser vista como privatização de capacidades básicas, em vez de meramente como baixo nível de renda”. Com isso, surge a chance de melhorias socioeconômicas e o vislumbre de uma sociedade mais igualitária em breve.