Síndrome de Burnout: o esgotamento físico e mental ligado à vida profissional

Enviada em 05/10/2020

“Aqui vai haver a abolição da escravatura, mas a estrutura básica da sociedade não vai mudar”. A assertividade do escritor Machado de Assis, no contemporâneo, ainda continua válida. Nessa perspectiva, aboliu-se a estrutura social escravocrata, mas o excesso de atividades no trabalho ainda se faz presente, o que pode gerar graves consequências de saúde aos profissionais, como a síndrome de Burnout - caracterizada, entre outros, por desgaste físico e psicológico – levando muitos, inclusive, a abandonar o próprio ofício. Com efeito, hão de se combater os dois principais percalços dessa questão: o nível elevado de exigências e o excesso de tecnologia.

Em primeiro plano, as cada vez mais disputadas vagas por postos de trabalho se caracterizam como uma das principais causas para a síndrome. A esse respeito, o sociólogo Zygmunt Bauman, em sua obra “Modernidade Líquida”, reflete sobre o cenário moderno de constante mudança e insegurança. Por conseguinte, a elevada demanda por empregos faz com que as empresas destinem a vaga para o candidato mais qualificado, algo que obriga os já contratados a se doarem o máximo ao emprego para não o perder, e acabam se sobrecarregando. Isso, infelizmente, compromete uma das peças-chave da dignidade humana: a saúde. Lê-se, pois, como grave, diante de tal processo inumano, que aumenta a exposição dos trabalhadores ao Burnout, exigências tão elevadas por parte dos empregadores.

De outra parte, o excessivo uso de aplicativos voltados ao trabalho também figura como fator ligado à questão. Isso ocorre, decerto, por conta da invasão (lamentavelmente, comum na atualidade) da fronteira que separa a vida particular do profissional, - ligações, e-mail, mensagens - fora do local de trabalho, tornando-se o indivíduo disponível, praticamente, 24 horas por dia. Sob tal ótica, é certo que, conforme afirma Benjamin Fraklin, o trabalho dignifica o homem, no entanto, a frágil separação desses dois ambientes por muitos brasileiros, no contemporâneo, pode lhes gerar a sobrecarga que provoca a síndrome de Burnout, além de lhes afetar o rendimento. Dessarte, é inconcebível que autoridades brasileiras, ante a gravidade do quadro, não invistam esforços para sua resolução.

Impende, portanto, apresentar caminhos para que a síndrome de Burnout seja atenuada no Brasil. Para tanto, o Congresso Nacional - responsável por elaborar/aprovar leis, deverá formular uma lei complementar sobre o Código do Trabalho, em que se aplique penalidades às empresas que exigem disponibilidade do funcionário mesmo fora do ambiente de trabalho – via e-mails, ligações, mensagens -, visando a imposição de uma barreira rígida entre a vida particular e profissional, de forma que não o sobrecarregue e dê espaço necessário para desenvolver as demais áreas de sua vida. Feito isso, a estrutura básica da sociedade, denunciada por Assis, deixará de ser factual no Brasil.