Síndrome de Burnout: o esgotamento físico e mental ligado à vida profissional

Enviada em 12/10/2020

Na obra “Ensaio sobre a cegueira”, o escritor José Saramago sinaliza, metaforicamente, uma crítica ao individualismo através de um processo epidemiológico de perda de visão que atinge toda uma comunidade. No Brasil, por exemplo, essa incapacidade coletiva de enxergar é vista na indiferença do Estado e de parte da população frente à falta de combate a síndrome de Burnout. Diante do exposto, cabe analisar os aspectos políticos e sociais que circundam essa questão no país.

Antes de tudo, pontua-se que o Poder Público tem se mostrado negligente ao permitir o não enfrentamento dessa síndrome. Como prova disso, vê-se a omissão das instituições governamentais perante a falha no processo de fiscalização, uma vez que, falta inspecionar a efetivação do ordenamento jurídico que prevê um limite para a carga horária de trabalho aos funcionários de uma empresa, visto que a violação de tal garantia tem influenciado o surgimento de quadros de exaustão e, consequentemente, a violação do direito à saúde daqueles. Desse modo, certifica-se que o bem-estar de toda a coletividade não tem sido assegurado, demonstrando a ruptura dos princípios presentes na Constituição Federal de 1988.

Ademais, observa-se que uma parcela da sociedade tem aceito o não combate a essa síndrome, o que denota uma banalização do mal. Confirma-se isso pela apatia de alguns indivíduos diante da ausência de assistência estatal, posto que falta oferecer auxílio jurídico aos trabalhadores que foram demitidos por apresentar um comportamento acentuado de estresse, o que pode comprometer, dessa forma, a possibilidade de reabilitação da saúde destes. A naturalização desse fato corrobora os estudos de Hannah Arendt, pois, segundo a filósofa, o enfraquecimento da capacidade humana de discernir o certo do errado é resultado de um processo de massificação social.

Evidencia-se, portanto, que é preciso combater a síndrome de Burnout. Para isso, é necessário que o Ministério Público solicite ao Poder Judiciário a segura implementação das leis existentes, ampliando o quadro de fiscais do Ministério do Trabalho, a fim de evitar que empresas comprometam a regulamentação das leis trabalhistas. Além disso, é fundamental que Organizações Não Governamentais, através de veículos midiáticos, promovam campanhas que estimulem a mobilização coletiva para que se exija do Estado a assistência jurídica necessária, com o intuito de garantir que funcionários não sejam dispensados do trabalho por apresentarem sintomas de esgotamento e evitar que tenham sua saúde comprometida. Sendo assim, seria possível restringir a negligência social à obra de José Saramago.