Subnutrição e a sua relação com a má distribuição de alimentos
Enviada em 13/09/2019
No filme Ilha das Flores, o cineasta Jorge Furtado retrata, a partir da trajetória de um tomate, a lógica do sistema capitalista, o qual produz relações extremamente desiguais, consequentemente, que, por vezes, inviabilizam o acesso do indivíduo a um dos diretos mais básicos e necessários: a alimentação. Dessa forma, a marginalização e o preconceito sofridos por certas parcelas da população afeta a obtenção de uma refeição digna. Ademais, o culto ao consumismo desenfreado estimula a perda de alimentos.
Em primeiro plano, mesmo que o Brasil seja um dos maiores produtores e exportadores de gêneros agropecuários do mundo, como carne bovina, soja e cana de açúcar, diversas porções da população não possuem uma nutrição completa e, em alguns casos, não há sustento algum. Desse modo, no livro Quarto de Despejo, a autora Carolina de Jesus relata seu cotidiano como catadora de lixo e moradora da favela do Canindé, na narrativa, demasiadas vezes, ela expõe a luta diária com a fome e sobre como isso é uma consequência do status concedido pela marginalização. Logo, é impossível não associar a subnutrição a baixas condições socioeconômicas, visto que à medida que se reduz o prestígio de uma classe, os quadros de miséria e desamparo se agravam.
Outrossim, apesar do alto nível de impostos, vive-se um cultura da fartura no Brasil, uma vez que há, no inconsciente coletivo da população, a concepção de que é melhor sobrar do que faltar, como resultado, imensas quantias de alimentos são descartados antes mesmo de serem consumidos. Dessa maneira, segundo o Panorama de Resíduos Sólidos no Brasil, são produzidos, anualmente, mais de setenta milhões de toneladas de resíduos sólidos no país, sendo que 51% é matéria orgânica, isto é comida, que, por inúmeras vezes, poderia ser usada para suster quem não possui condições básicas, todavia, é perdida por um capricho do ego. Por isso, em uma realidade de contrastes, o poder de compra suplanta qualquer estado ou direito humano que o indivíduo, supostamente, deveria ter.
Portanto, a fim de minimizar os impactos da desigualdade sistemática, o Governo Federal deve buscar meios para reformular o acesso à nutrição. Isto posto, com o auxílio do Ministério do Desenvolvimento Regional, precisa criar centros de coleta, em todo território nacional, que receberão esses alimentos que seriam descartados e, mediante a um meticuloso processo de filtragem, serão utilizados para preparar refeições, disponibilizadas nos moldes de restaurantes populares, que por meio de valores simbólicos, objetivam nutrir as populações vulnerabilizadas. Assim, é possível romper com os ciclos da fome e da pobreza.