Subnutrição e a sua relação com a má distribuição de alimentos
Enviada em 12/08/2020
“Tem gente passando fome. / E não é a fome que você imagina / entre uma refeição e outra.” Os versos do poema “Além da imaginação” de Ulysses Tavares retratam a abissal distância social gerada pela persistente desigualdade. Nele, o eu lírico desmascara para o interlocutor “você” as vulnerabilidades a que as populações carentes brasileiras estão submetidas advindas da negligência estatal. Fora do campo literário, a realidade é a mesma, pois milhões de cidadãos sofrem com a fome ou com a falta de uma alimentação saudável devido, muitas vezes, a uma perspectiva egocêntrica do capitalismo, ocasionando variados problemas de natureza social e sanitária.
Primeiramente, para o escritor português José Saramago, a fome é uma das mazelas do capitalismo. Segundo esse literato, vive-se numa sociedade do ter em detrimento do ser. Esse sistema político gera, assim, uma grave distorção: a preocupação excessiva com a lucratividade e a ocupação muito primária com a humanidade. Esse fato é exemplificado com o próprio Brasil, um dos países com maior produção agrícola do mundo, porém com uma geração concentrada nos “commodities”, produtos agrícolas de baixo valor agregado, utilizados, majoritariamente, para alimentar o gado, mas não a população carente. Dessa forma, infelizmente, menos da metade dos grãos destina-se à alimentação, enquanto a maior parte serve para fabricar rações animais, biocombustíveis e outros produtos industriais.
Outrossim, consoante o jornalista Gilberto Dimenstein, em seu livro “Cidadão de Papel”, a maior consequência da falta de alimentação ou da alimentação precária é o prejuízo do potencial de trabalho daqueles que sofrem com a subnutrição. Sendo, normalmente, a força de trabalho o único recurso que esses indivíduos têm a oferecer, a redução da sua capacidade de labor pode agravar ainda mais sua condição econômica e perpetuar sua condição de falta de alimentação. Ademais, essa carência alimentar retarda o crescimento infantil, deixa sequelas nas habilidades cognitivas e diminui o desempenho e a presença escolar de diversos alunos carentes, a exemplo do poema acima.
Portanto, a fim de diminuir os índices de subnutridos no país, o Ministério da Cidadania deverá criar programas sociais eficazes que visem ao combate à fome por meio da criação de restaurantes populares isentos de taxas, os quais devem fornecer alimentação com valores nutricionais equilibrados. Além disso, com vista a diminuir a perversidade intrínseca ao capitalismo e de possibilitar a compra de alimentos pelas classes mais baixas, o Ministério da Economia terá que ampliar o poder de consumo das classes sociais desfavorecidas mediante a criação de programas de distribuição de renda, que devem transferir o valor arrecadado dos impostos das grandes empresas aos pobres. Assim, a “gente” do poema “Além da imaginação” será somente a imagem de um passado poético de desigualdade.