Superbactérias: reflexo da automedicação?
Enviada em 05/07/2020
“Superbactérias” é um termo dado a um conjunto de bactérias resistentes a uma enorme gama de antibióticos, sendo responsáveis por inúmeros óbitos, em especial no ambiente hospitalar. No filme Contágio, é retratada a situação de hecatombe causada por um patógeno que, ao evoluir para uma situação de pandemia, acabou por ceifar a vida de inúmeras pessoas, alterando drasticamente a sociedade a nível mundial. Ironicamente, com a pandemia da COVID-19, sentimos fora das telas as consequências de uma tragédia dessa natureza, que gera não só a morte de pessoas, como também reflete nos sistemas de saúde e financeiro. Ocorre que, impulsionados pelo uso indiscriminado de antibióticos, que dão origem a cepas bacterianas cada vez mais resistentes, não estamos distantes de gerar outra situação semelhante, ou até pior.
No Brasil, após registrar quase dez mil casos de bactérias resistentes nas UTIs do país, a ANVISA passou a incluir os antibióticos na lista de Medicamentos Controlados, ou seja, que só podem ser vendidos mediante a apresentação de prescrição médica. Porém, assim como outros órgãos com poder de polícia, a ANVISA enfrenta um histórico déficit no seu corpo de fiscais. Sem fiscalização efetiva e com a conduta irresponsável de tantos estabelecimentos farmacêuticos mais preocupados com vendas, fica fácil conseguir esses medicamentos sem os requisitos necessários.
Thomas Jefferson, notável presidente dos EUA é conhecido também como autor da famosa máxima: “O preço da liberdade é a eterna vigilância.” Todavia, quando os recursos são escassos, o conceito de “vigilância” é forçado a se expandir, focando não apenas na fiscalização das vendas dos antibióticos, mas também nos motivos que levam à aquisição descontrolada dessas substâncias. Ou seja, é notório que a causa do problema reside principalmente na desinformação da população, que vai desde o desconhecimento da natureza do tratamento com esses fármacos, às consequências de uma terapia mal aplicada.
Decerto, a melhor forma de otimizar resultados na guerra contra o surgimento de Superbactérias deve passar tanto por uma maior participação dos órgãos fiscalizatórios e de saúde, como também pela participação direta de toda a população, por meio da efetiva conscientização de todos. Portanto, impende que o Ministério da Saúde, em conjunto com a ANVISA, invista em ações educativas nos meios de comunicação e nas mídias sociais, no afã de convencer a população acerca dos malefícios da auto-medicação, especialmente tratando-se de antibióticos. Tudo isto, juntamente com ações concretas de fortalecimento desses órgãos, captando investimentos para melhorias e contratação de novos técnicos, certamente contribuirá para que evitemos novas pandemias e prejuízos maiores no futuro.