Superbactérias: reflexo da automedicação?

Enviada em 27/07/2020

Em 1941, o policial inglês Albert Alexander estava hospitalizado com o rosto coberto por abscessos que drenavam pus. Era um caso perdido, e por isso mesmo, um potencial candidato para o teste da penicilina. Em menos de 24 horas após a aplicação desta, a febre se esvaiu e a infecção começou a regredir. Este foi, sem dúvida, um dos maiores marcos da história da medicina: a invenção dos antibióticos. Contudo, no século XXI, o uso desmedido destes medicamentos pode corroborar para o desenvolvimento das chamadas superbactérias (bactérias super-resistentes a remédios). Tal problemática ocorre tanto pela dificuldade das pesquisas científicas em aprimorar os fármacos bactericidas, quanto pela falta de conhecimento e discussão da população acerca disso.

Convém lembrar, primordialmente, que desde os anos 1990 não há pesquisas efetivas para o aperfeiçoamento destas substâncias, o que fortalece os patógenos bacterianos. Ressalta-se que os antibióticos são uma classe fundamental de medicamentos, porém seus inimigos também são bons de guerra: as bactérias evoluem formando uma série de armas para combatê-los e são capazes de, geneticamente, transmitir entre si os genes responsáveis pela resistência. Diante disso, vive-se uma situação bastante complicada, já que combater as bactérias é também dar oportunidade para que se fortaleçam, dificultando, assim, as pesquisas contra estas. É a evolução em seu estado mais puro.

Em segundo lugar, destaca-se a carência do debate sobre esta temática no meio social. Por sua vez, não terminar o ciclo do antibiótico e não respeitar a dose prescrita são hábitos comuns, que precisam se combatidos. Quem nunca chegou num hospital com uma dor de garganta e saiu com uma receita de Amoxicilina? São casos assim, que poderiam ser resolvidos com anti-inflamatórios e antipiréticos que culminam no progressivo e gradual fortalecimento das superbactérias. Desse modo, pode-se considerar que o exagero dos médicos em receitar antibióticos e dos pacientes em pedi-los contribuiu para fortalecer uma cultura de dispensar medicamentos fortes de forma indiscriminada e, muitas vezes, sem resultado algum.

Portanto, urge que medidas do Ministério da Saúde e da mídia sejam tomadas a fim de amenizar o quadro atual. Já que a ciência demora anos para gerar medicamentos e as bactérias levam 20 minutos para se reproduzir, pesquisas não são o melhor caminho. Assim, o mais correto seria haver teste rápidos para a identificação do agente infeccioso específico e só então receitar um antibiótico adequado caso for necessário. Além disso, campanhas midiáticas devem desconstruir esse pensamento de que antibióticos servem para tudo e dos clínicos que os receitam à torto e à direito, para enfim haver mais pacientes salvos, tal qual Albert Alexander.