Superbactérias: reflexo da automedicação?
Enviada em 28/09/2021
Na obra pré-modernista “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, do escritor Lima Barreto, o protagonista acredita fielmente que, se superados alguns obstáculos, o Brasil projetar-se-ia ao patamar de nação desenvolvida. Hodiernamente, de maneira análoga, o cenário de automedicação é um provável imbróglio social que o major Quaresma entenderia como fator de ruptura das engrenagens nacionais. Dessa forma, seja pela letárgica atuação social, seja pela leniência estatal, esse empecilho desafiador é vigente. Urge, assim, a necessidade de analisar e de buscar ações para superar essa celeuma.
Nesse ínterim, a omissão social é fator determinante para a manutenção dessa conjuntura. Sob essa égide, Michel Foucault, pensador francês, em sua teoria sobre a Microfísica do Poder, expõe que a normalização dos costumes parte de todas as instituições sociais. A partir desse pressuposto, é fundamental destacar a falta de informação, somado à ausência de conscientização, como fator catalisador dessa questão. Com efeito, a naturalização dessa conjuntura gera um círculo vicioso, uma vez que não há reflexão crítica por parte do contingente populacional. Logo, o contrato social é diluído, e o tecido social entra em anomia.
Por outro lado, é fulcral pontuar a inoperância do poder público em cumprir seu papel de promotor do bem-estar social. Sob esse prisma, o pensador contratualista John Locke, em seu “Contrato Social”, afirma que o Estado deve promover meios para garantir a harmonia entre o meio coletivo. No entanto, escassez de políticas públicas, principalmente de fiscalização, faz com que esse paradigma mantenha-se vigente. Em consequência disso, há a transgressão da Constituição Federal de 1988, uma vez que o artigo 196 apresenta como fudamento a saúde, direito de todos e dever do Estado. Então, enquanto a negligência estatal for realidade, o Estado Democrático de Direito será utópico.
Portanto, faz-se necessário buscar medidas para mitigar tal mazela. Para tanto, é dever do Poder Executivo, sobretudo na voz das prefeituras, promover uma ampliação concreta do setor da saúde, por meio de investimentos financeiros- os quais serão revestidos na especialização e na capacitação de profissionais da área e em melhorias na infraestrutura-, com vistas à consolidação de um meio permeado pela coexistência harmônica e eficaz entre legisladores e civis, na qual os direitos constitucionais serão garantidos e respeitados. Ademais, convém às escolas, em parceria com as famílias, realizar no cotidiano escolar debates, palestras e ouvidorias acerca dos desafios para superar a automedicação, com intuito de viabilizar a construção gradativa de uma sociedade mais harmônica e de formar o senso crítico. Desse modo, o sonho ufanista de Quaresma tornar-se-á realidade.