Superbactérias: reflexo da automedicação?

Enviada em 18/11/2021

A Constituição Federal de 1988, documento jurídico mais importante do país, prevê, em seu artigo 6º, o direito à saúde e bem-estar como inerente a todo cidadão. Conquanto, tal prerrogativa não tem se reverberado adequadamente na prática ao observar o aumento da quantidade de superbactérias, dificultando, desse modo, a universalização desse direito social crucial. Diante disso, cabe pontuar o negligenciamento estatal e o aspecto sociocultural como pilares fundamentais da chaga.

Nesse cenário, vale ressaltar a inoperância estatal ao controle das bactérias resistentes. Decerto, falta de programas instruindo ao uso corretos dos antibióticos e a falta de investimentos na pesquisa de novos antibióticos é realidade da política do país, resultando nos diagnósticos tardios e na violação do contrato social estabelecido. Segundo o filósofo John Rawls, em sua obra “Uma Teoria da Justiça”, um governo ético é aquele que disponibiliza recursos financeiros a todos os setores públicos, promovendo a importância de cada um para o bem-estar social. Sob tal óptica, torna-se evidente que o Brasil não é um exemplo do pensamento desse teórico, visto que, segundo a Anvisa houve cerca de 10 mil casos registrados de bactérias super resistentes, tendo como efeito o aumento da letalidade delas e a dificuldade no tratamento, já que não há novos antibióticos desde 1990 segundo a OMS, submetendo a população à periferia da cidadania.

Ademais, é importante considerar o fator grupal. Conforme o pensador Jurgen Habermas, a razão comunicativa – ou seja, o diálogo – constitui etapa fundamental do desenvolvimento social. Nesse ínterim, a falta de estímulos ao debate a respeito das superbactérias no Brasil hodierno, todavia, coíbe o poder transformador da deliberação e, consequentemente, ocasiona em uma sociedade que desconhece a grandeza do problema. Por conseguinte, a população para de usar o antibiótico antes do tempo estipulado, se automedica e, segundo o infectologista Carlos Kiffer isso é o principal motor para essas linhagens resistentes. Nesse sentido, o coletivo corrobora com a propagação do problema, já que carece de informações.

Entende-se, portanto, a temática como um obstáculo intrínseco às raízes culturais e legislativas. Logo, a mídia, por intermédio de programas televisivos de grande audiência, irá discutir o assunto com infectologistas, com o fito de mostrar o perigo das novas bactérias, apresentar a visão crítica e orientar os espectadores como evitar que tais casos aumentem. Essa medida ocorrerá por meio da elaboração de um projeto estatal em parceria com o Ministério das Comunicações. Em adição, aumentar as verbas destinadas as pesquisas de novos antibióticos. Assim, o bem-estar outorgado pela Constituição será garantido.