Tabagismo no século XXI: problemas e consequências
Enviada em 14/10/2020
Na obra “Ensaio Sobre a Cegueira”, o escritor português José Saramago descreve uma epidemia de cegueira que, ao se instaurar, intensifica vertiginosamente as adversidades sociais. Fora da literatura, uma cegueira moral, parecida com a do romance, impede que se enxergue a ameaça que o tabagismo representa à sociedade brasileira, uma vez que é responsável por 8 milhões de mortes por ano segundo a OMS. Nesse sentido, deve-se ponderar o papel da negligência governamental, bem como da naturalização do consumo de cigarros na manutenção dessa conjuntura deletéria ao país.
Primeiramente, faz-se necessário analisar a ineficácia do Poder Público como um obstáculo para o combate ao tabagismo. Segundo o filósofo Rousseau, na medida em que o Estado se exime de sua função de promover o bem comum da sociedade, há a infração do contrato social. Com efeito, essa violação se evidencia na falha em garantir o cumprimento das leis que impedem o consumo de cigarros em locais públicos. Como consequência, indivíduos que não se utilizam diretamente dessa mistura de substâncias são expostos a ela, fator tal que representa 15% do total de mortes por tabagismo conforme dados do Ministério da Saúde. Desse modo, tal ausência do mecanismo governamental no suporte às necessidades coletivas não só contribui para o descaso com o corpo social, bem como descumpre o direito à saúde garantido constitucionalmente.
Além disso, a alienação social afigura-se como um revés, uma vez que impede que a população se confronte com os males sanitários a que o fenômeno em questão conduz. Sobre isso, Hannah Arendt, no livro “A Banalidade do Mal”, postulou que, em uma sociedade cujos princípios não são criticamente questionados pelos indivíduos que a compõem, ações deletérias tendem a ser normalizar sem resistência. Sob essa ótica, depreende-se que a ausência generalizada de debates acerca do consumo de substâncias que levam ao tabagismo catalisa um processo no qual essa prática deixa de ser contemplada como prejudicial. Por conseguinte, ela finda por permanecer na comunidade ao longo das gerações, em virtude de não ser enfrentada.
Portanto, é imprescindível que o tabagismo seja combatido no cenário brasileiro. Para isso, o Ministério da Saúde deve instituir projetos itinerantes que contarão com profissionais da saúde os quais farão apresentações em praças públicas e “shoppings centers” sobre os malefícios do tabagismo. Essas apresentações trarão relatos de indivíduos acometidos pela doença e dados da atual conjuntura dela, a fim de que se subsidiem debates entre a população. Feito isso, uma sociedade cujos princípios se afastarão de comparações com a obra de Saramago será alcançada.