Tecnologia e seu impacto na democracia brasileira

Enviada em 31/10/2018

As jornadas de junho de 2013 foram um exemplo de movimento social de relevância nacional cuja abrangência deveu-se, em grande parte, às novas formas de organização possibilitadas pelo meio digital. Se por um lado, a acessibilidade facilitada das tecnologias da informação permite um engajamento maior da população junto às questões políticas, por outro, é importante atentar para os possíveis maus usos dessas ferramentas quando apropriadas de forma anti-democrática por grupos politicamente motivados.

Em primeiro lugar, é válido ressaltar o papel educador desempenhado por diversas fontes de conhecimento encontradas no ambiente “online”, papel esse que se expressa no pensamento de um dos maiores filósofos e pedagogos brasileiros, Paulo Freire. Segundo ele, nenhum homem educa a si mesmo, eles se educam entre si, mediatizados pelo mundo. Tal mediatização encontra-se amplificada no meio virtual a partir do aumento das conexões e do potencial colaborativo entre as pessoas. Exemplos desse processo são a criação das enciclopédias online, cursos à distância, fóruns de discussão e, principalmente,  as redes sociais, que apresentam um ambiente favorável à divulgação de diversos tipos de mobilização social. Segundo um levantamento realizado pelo Datafolha, 60% dos brasileiros que já participaram de movimentos sociais o fizeram por meio da internet.

Em segundo lugar, destacam-se os eventuais maus usos dos recursos informacionais a fim de prejudicar a construção democrática do país. Um deles é a propagação das “fake news”, que tornaram-se perigosas armas políticas a serviço da desinformação. Basta constatar seus efeitos no processo eleitoral norte americano de 2016, no qual os dados pessoais de milhares de cidadãos foram utilizados ilegalmente a fim de direcionar as notícias falsas a um eleitorado mais propenso a propagá-las, contribuindo para a campanha do presidente eleito Donald Trump. Além desse tipo de prática, também é notável a utilização de robôs que se passam por pessoas na internet a fim de gerar uma visibilidade artificial a determinado candidato ou tema de discussão, o que constitui uma forma claramente nociva de manipulação do debate público.

Diante desse novo cenário de trocas de conhecimento e ativismo, algumas medidas são necessárias para favorecer a utilização construtiva dos meios de comunicação digital. Uma delas é o investimento, pelo governo federal, por intermédio do Ministério das Comunicações, em programas de inclusão digital, como a implementação de banda larga de qualidade nas escola públicas brasileiras. Outra medida importante seria uma ação conjunta da imprensa e da população civil no sentido de apurar e denunciar as notícias consideradas suspeitas, impedindo a divulgação irresponsável destas.