Transfobia em debate no Brasil

Enviada em 23/10/2018

No filme “A Garota Dinamarquesa” - obra premiada com o Oscar - a questão dos desafios enfretados por transsexuais é a temática central. Assim, no decorrer da trama, é narrado o processo de auto-aceitação da protagonista trans, como também a constante invalidação e violência sofridas em seu dia a dia. Fora das telas, infelizmente, a situação retratada não se restringe à ficção: hodiernamente, um contingente cada vez maior de indivíduos LGBT, sendo inclusos os transsexuais, tem suas vidas ceifadas pelo preconceito.

Em primeira análise, cabe pontuar que os crimes de violência contra a parcela transgênera da sociedade não são apenas ocorrências aleatórias, frutos da violência urbana, mas são, na verdade, motivados pelo ódio. Sendo assim, a intolerância contra a supracitada classe não deriva apenas da brutalidade urbana, mas, na verdade, é um reflexo grotesco da institucionalização de preconceitos patriarcalistas e excludentes. Em contraste com o cenário discriminatório antes posto, Rousseau afirmava que preferia ser um homem de paradoxos, do que de preconceitos. Nesse sentido, nota-se que a comunidade civil não compartilha dos mesmos valores que o filósofo, haja vista a estatística de que 343 pessoas LGBT foram assassinadas no Brasil em 2016, conforme diz a plataforma “Grupo Gay da Bahia”.

Em segunda análise, vale ressaltar que a anteriormente referida intolerância não é espontânea, tampouco natural na sociedade. Assim, há um processo gradativo para a instituição dessa violência simbólica, sendo a sua manutenção garantida seja pela mídia, seja pela educação, como afirma Pierre Bordieu. Dessa forma, ao retratar de maneira agressiva e caricata a parcela transsexual em sua programação, a mídia contribui para a mimetização, por milhões de brasileiros, desses atos discriminatórios. Ademais, a educação, ao não incluir em seu arcabouço debates inclusivos sobre a questão de gênero, de forma democrática, acaba por contribuir para o lamentável cenário de impasses instaurado atualmente.

Sendo assim, considerados os impactos negativos causados pela transfobia no Brasil, medidas combativas devem ser aplicadas. Logo, é irremediável que o Ministério da Educação promova o financiamento de eventos educativos, voltados para a questão de gênero. Tais eventos devem ser realizados em formas de palestras presenciais, contando com a participação de psicólogos e pedagogos especializados na questão LGBT. Ademais, é preciso que tudo isso seja realizado em escolas públicas, de forma que o debate seja democratizado, e que a arcaica problemática da transfobia seja, enfim, superada.