Transfobia em debate no Brasil
Enviada em 23/02/2019
O vilão “Ele”, de As Meninas Super Poderosas, é um demônio que tem expressão de gênero - o modo de agir e vestir - feminina, em oposição do seu nome. Analogamente, na vida real, pessoas com expressão ou identidade de gênero diferentes das que lhe foram sentenciadas pela biologia, são frequentemente demonizadas e vistas como um verdadeiro mau. É esse panorama de transfobia que desencadeia um infeliz cenário de violência e intolerância.
Cabe destacar, primeiro, que o Brasil tem maioria conservadora e religiosa, e isso contribui imensamente para a transfobia. A título de exemplo, tem-se o presidente eleito em 2018, que conquistou milhões de eleitores sob discursos conservadores, principalmente o de combate à suposta ideologia de gênero. Com sua vitória, transfóbicos sentiram-se legitimados a atos de violência, como no caso da Jullyana Barbosa, que, consoante a Uol, foi agredida com gritos de apologia ao então candidato a presidente. Atrocidades como essa titulam o Brasil com a vergonhosa primeira posição no ranking dos países que mais matam transsexuais, de acordo com a ONG Transgender Europe.
Há, ainda, o empecilho da discriminação institucionalizada. Porquanto a recusa de se contratar transsexuais devido a o preconceito, eles dificilmente adquirem independência financeira. Essa exclusão no mercado de trabalho os deixa sem rumo senão situações deploráveis, como a prostituição. Nesse horizonte, segundo a Secretaria de Direitos Humanos, 90% das pessoas trans recorrem a essa “solução”. Isso contribui ainda mais para com a visão negativa a respeito dos transsexuais, pois eles passam a ser vistos como amorais.
Urge, portanto, que o Governo, em parceria com a ONG TransEmpregos, desenvolva um sistema de cotas em instituições, para o emprego de pessoas trans, a fim de possibilitar a entrada no mercado de trabalho, como já feito pela C&A. Cabe, então, às escolas, desconstruir os paradigmas conservadores, por meio do debate sobre gênero nas salas de aula, a fim de formar adultos concordantes do pensamento da filósofa Judith Buttler, de que a identidade de gênero é um direito, não uma ideologia.