Vida Urbana no século XXI: A cidade é para todos?
Enviada em 28/06/2020
No filme “Cidade de Deus” é retratada a evolução da degradação urbana e social de uma região no Rio de Janeiro, nascida da necessidade de “alocação” da mão de obra barata da construção civil, indústria e comércio das regiões “mais nobres”. Para além da ficção, a realidade se apresenta de forma análoga, evidenciando o total desinteresse por parte do poder público por algumas regiões periféricas, em detrimento de outras áreas muito mais atrativas ao mercado imobiliário. Como resultado direto, temos cidades que crescem pensando apenas no imediatismo do lucro e qualidade de vida de alguns, ignorando por completo as consequências do aumento das periferias e da situação de abandono de grande parte da população, bem como as consequências deste complexo caldo social.
Contrariando o princípio constitucional da função social da moradia, a metrópole, como organismo vivo e dinâmico, reage não só às demandas do mercado imobiliário, mas também às necessidades da periferia, que, na falta da presença efetiva do Estado, acaba por tentar colocar outras coisas no lugar. Por conseguinte, nasce daí o crescimento do tráfico e da violência, que por sua vez, exerce sua pressão contra as áreas nobres, por vezes vizinhas, obrigando os seus moradores ao conforto claustrofóbico dos muros dos condomínios fechados e seguranças particulares.
Por outro lado, temos também nas cidades o movimento inverso, quando os pobres são literalmente expulsos de áreas por eles ocupadas por muitos anos, pelo motivo da valorização desses espaços. Ato contínuo, aos moradores dessas “invasões”, declaradamente ilegais, não é oferecida qualquer assistência, pouco importando se irão aumentar outra invasão, as estatísticas criminais ou de suicídios. Certamente, esta é a face mais nefasta do crescimento selvagem das metrópoles, sempre convergindo para as chamadas frentes imobiliárias e comerciais, nunca para o social.
Decerto, a falta de uma gestão pública eficiente no sentido de regular esses movimentos tende a agravar o quadro, aumentando o abismo social entre essas duas realidades e por outro lado, promovendo o convívio íntimo e turbulento entre a ordem e a desordem. É preciso que a administração pública, mais especificamente as Secretarias de Infraestrutura, promovam uma política de gestão mais eficiente dos espaços urbanos, promovendo em parceria com a iniciativa privada uma maior qualificação das periferias, incentivando pólos comerciais e a oferta de serviços públicos como saneamento básico e escolas, buscando uma uniformidade entre ária nobre e periferia. Dessa forma, o cidadão poderia enfim aproveitar a sua cidade, aproveitando potenciais turísticos e sociais que terminam por vezes esquecidos em meio a tantas ingerências.