Vida Urbana no século XXI: A cidade é para todos?
Enviada em 07/08/2020
O romance naturalista “O cortiço”, escrito pelo brasileiro Aluísio de Azevedo, ao final do século XIX, retrata o cotidiano de seus moradores e as lutas diárias pela sobrevivência. Hodiernamente, observa-se semelhança entre a realidade urbana do século XXI e as mazelas sociais abordadas na ficção literária. Nesse viés, há uma evidente periferização da pobreza, acarretada, principalmente, pela lógica neoliberalista adotada nas metrópoles, a qual favorece a segregação, e pela ausência de planejamento urbano, a qual resulta no crescimento horizontal desordenado nas cidades. Diante disso, tornam-se fulcrais políticas públicas e sociais que transformem o ambiente citadino em um lugar para todos.
Entender o tema é não desconsiderar o processo de Globalização, iniciado ao final do século XX, o qual possibilitou o aprimoramento das relações econômicas mundiais. Não obstante, vê-se a precarização das questões sociais nos centros urbanos, relacionada à adoção do neoliberalismo o qual defende o Estado mínimo e o controle da vida urbana pela economia. Por tal razão, surgem dificuldades de permanência nas cidades associadas à especulação imobiliária, a qual consiste no aumento exponencial do valor dos imóveis, que se torna insustentável para considerável parcela dos brasileiros. Concomitantemente, ocorre o movimento centrífugo de pessoas com baixo poder aquisitivo, o qual evidencia a segregação social . A partir de tal constatação, ganha relevância o termo “globalização perversa”, do geógrafo brasileiro Milton Santos, por meio do qual critica as contradições e as individualidades advindos dela.
Outrossim, de acordo com dados do Instituto Data Favela e Locomotiva, de 2020, 13,6 milhões de brasileiros residem em favelas. Nesse sentido, o problema está atrelado à ausência de planejamento urbano, o qual resulta em um crescimento horizontal desordenado das cidades, fenômeno denominado favelização. Todavia, esse crescimento extensivo não é acompanhado pela ampliação dos serviços sociais relacionados à saúde, à educação e à economia. Por consequência, problemas como a falta de saneamento básico, o abandono escolar e o aumento do deslocamento diário são responsáveis por comprometer a qualidade de vida das pessoas, ratificando o argumento de que a cidade não é de todos.
Diante desse cenário, medidas são necessárias, a fim de atenuar o problema. Para tanto, o Ministério da Economia deve controlar o aumento dos preços dos imóveis nas cidades, por meio da fiscalização das grandes empresas imobiliárias, sob a pena de multas, com o fito de possibilitar a permanência nos centros. Ademais, as ONGs, devem requerer as necessidades das comunidades, a partir de unidades móveis, como ônibus, a fim de pressionar o Ministério da infraestrutura para a qualificação de áreas periféricas, com investimentos em serviços de saúde e de educação e em polos comerciais. Com tais ações, será possível reduzir as contradições previstas por Milton Santos.