Vida Urbana no século XXI: A cidade é para todos?
Enviada em 05/09/2021
O movimento literário denominado “Parnasianismo”, cujos expoentes foram Olavo Billac e Raimundo Correa, teve como característica marcante o eruditismo, de modo que afastou grande parte do público popular. De modo semelhante, o meio urbano apresenta características capazes de excluir certas camadas do contingente; analisar o fenômeno da gentrificação e do abandono estatal em certos setores torna-se fundamental para a compreensão da problemática.
Em primeiro plano, o ideal de modernização e pacificação de certas áreas outrora danificadas pelo tempo ou marcadas por violência apresenta uma contradição grave. Nesse contexto, ao passo que surgem propostas para reconstrução de moradias e reformas urbanas, tal conjuntura tende a afastar, mesmo que de maneira velada, o contingente mais pobre. A exemplo do exposto, há o caso do Morro do Vidigal, que foi alvo de políticas cujos objetivos eram promover melhorias na região, mas, devido à especulação imobiliária, segundo o “Rio On Watch”, vários de seus moradores são pressionados a vender terrenos e, destarte, não aproveitarão os benefícios vindos. Infere-se, logo, que essa população voltará a áreas precárias e continuará vivendo em situações similantes às anteriores; a gentrificação contribui diretamente para a continuidade de um ciclo de marginalização das camadas sociais mais inferiores no meio urbano.
Ademais, medidas governamentais herdadas de tempos remotos também servem para impedir a democratização das cidades. Dessa forma, a herança de políticas de abandono de áreas de risco impede a existência de uma cidade com recursos acessíveis a todos os cidadãos; os bairros periféricos, sobretudo as favelas, carecem, por exemplo, de tratamento de água e esgoto. Tal impasse, que poderia ser solucionado com a instituição de projetos do primeiro setor social, é ignorado e faz parte de um projeto visto desde o grande êxodo rural pós-abolição, em que a população pobre se concentrou em locais periféricos, e o Estado optou por não instituir melhorá-los. Destarte, o livro “Clara dos Anjos”, de Lima Barreto, apresenta a descrição, já em séculos passados, da zona periférica como sem o olhar estatal.
Portanto, o meio urbano brasileiro apresenta grandes empecilhos no tangente à sua democratização. Para revitalizar locais precários sem que haja gentrificação, deve o Poder Legislativo, por meio de alteração no Estatuto da Cidade, incluir trechos acerca da proibição de venda de terrenos em espaços recém-modernizados por dez anos após tal revitalização. Assim, será incumbência do Estado ajudar as famílias que não se adaptarem aos preços novos, bem como promover o acesso de todos aos benefícios urbanísticos. Somente assim, os trechos de Lima Barreto serão apenas relatos do passado.