Violência financeira contra idosos
Enviada em 05/11/2021
Parafraseando a filósofa Simone de Beauvoir, mais escandalosa que a existência de uma problemática é o fato de a sociedade se habituar a ela. A partir dessa premissa, observa-se a inércia comportamental da sociedade, relacionada a diversas questões que seguem sem visibilidade, entre elas, a violência financeira contra os idosos. Nesse contexto, o aproveitamento de vínculos afetivos e a vulnerabilidade desse grupo são fatores que corroboram esse triste panorama. São prementes, pois, discussões acerca dos efeitos dessa cruel tendência.
A princípio, cabe salientar a exploração de vínculos afetivos como causa da agressão monetária contra a terceira idade. Nesse sentido, segundo o sociólogo Bourdieu, em seu conceito de violência simbólica, existe um tipo de violência que ocorre da cumplicidade implícita entre agressor e vítima. Diante desse conceito, é perceptível que a violência financeira contra os idosos pode ser enquadrada nessa definição. Isso porque, seja pela cobrança de bens ou pela coação para assinar orçamentos, muitos familiares, ao utilizarem o vínculo afetivo para pedir favores ou para impor condições, forçam uma utópica cumplicidade, danosa para muitos idosos. Assim, mediante o aproveitamento da fragilidade dos idosos, tende a haver, de modo vil, a quebra da liberdade financeira dessas pessoas.
Outrossim, a vulnerabilidade dos idosos é outro motor da barbárie financeira contra esse grupo. Nesse viés, segundo o sociólogo Durkheim, o fato social é uma forma de agir e de pensar dotada de exterioridade, coercitividade e generalidade. Do mesmo modo, a mentalidade de que aqueles com idade mais avançada devem dissipar sua renda, pois já estão no fim da vida, comporta-se como fato social patológico. Sob esse prisma, os idosos estão suscetíveis a golpes e a ações mal-intencionadas, as quais visam o benefício próprio e o lucro. A título de exemplo, vale citar a prática de muitas farmácias, que “empurram” medicamentos e produtos extras na hora do pagamento pelos aposentados e gera comissão para os funcionários. Logo, devido à ideia de vulnerabilidade remetida aos mais velhos, pode ocorrer a naturalização de práticas antiéticas.
Portanto, a violência financeira contra idosa envolve o aproveitamento de vínculos afetivos e da vulnerabilidade desse grupo para fins lucrativos. Posto isso, cabe ao Ministério da Mulher, da Família, e dos direitos humanos a construção de campanhas informativas por meios de propagandas – as quais ofereçam dicas de educação financeira para idosos não “caírem” em golpes, com exemplos práticos – para que assim a integridade e a liberdade financeira da terceira idade seja ,de fato, garantida.