Violência infantil: como garantir os direitos da criança e do adolescente?
Enviada em 01/11/2018
Sônia era uma menina de quinze anos que recusava-se a ser mulher, apenas a morte viu seu rosto verdadeiro e único, quando o mortífero abusador ceifou sua vida em meio a valsa de Chopin que ecoava ao piano. Essa ficção, retratada no livro “Valsa nº6”, de Nelson Rodrigues, infelizmente, faz-se concreta na realidade da sociedade contemporânea, uma vez que o violência infantojuvenil insiste em ecoar na pátria mãe-gentil. Dessa forma, seja pelo viés cultural de delinear a criança como uma vítima frágil, seja pela vulnerabilidade dessa em sua condição de dependência aos pais, de fato, o abuso infantil é um grave problema a ser combatido.
A princípio, é lícito referenciar o filme “Um olhar do paraíso”, pois aborda a visão de uma menina que, depois de abusada e assassinada por um vizinho, observa, no limbo, a preparação desse para um novo crime. Nesse sentido, compreende-se o viés histórico e cultural da sociedade em representar a imagem da criança como uma vítima desamparada e desprotegida, transformando-a em um fácil alvo para as mazelas que permeiam a mente adulta. Assim, têm-se, na retratação social da infância, uma fragilidade imposta e tomada como verdade absoluta, que contribui para a perpetuação do abuso físico, sexual ou psicológico sofrido por esse público.
Além disso, convém ressaltar o estado de dependência e superproteção semeado pela família na mente da criança, que preconiza o desenvolvimento de um mecanismo próprio de defesa, e torna-a vulnerável a ação de malfeitores, oportunistas da inocência infantil. À vista desse preceito, têm-se que a incidência de abuso à criança vem aumentando nos últimos anos, segundo Ministério da Saúde, uma vez que, apenas em 2016, foram em torno de 15 mil denúncias. Por conseguinte, torna-se nítido que a negligência parental em superproteger os filhos, sem alertá-los dos perigos alheios, agrava o problema do abuso infantil na hodiernidade.
Com essas constatações, infere-se que a cultura de delinear a criança como alguém frágil, aliada a dependência que os pais submetem-as, perpetua esse crime à integridade infantil. Portanto, urge-se que o Ministério da Saúde, em parceria com os meios comunicativos, acentue a divulgação do “Disque 100” - canal responsável pelas denúncias dessa problemática -, utilizando-se, para isso, de propagandas nas mídias sociais e divulgando-o nas ficções, de forma a atingir todos os públicos. Com essa iniciativa, será possível desconstruir, na sociedade, a imagem frágil da criança, dando ciência aos pequenos que há um mecanismo para defesa de sua integridade. Assim, poder-se-á interromper a macabra valsa abusiva que roubou de Sônia a inocência - e a vida.