Violência no trânsito em debate no Brasil
Enviada em 28/09/2020
René Girard, historiador francês, declarou que a violência no Homem não é instintiva, mas intersubjetiva e social, a qual a sociedade a pode manter. Nesse sentido, é de suma importância analisar o debate de tal comportamento no trânsito, dado que se verifica, no tecido social, um aumento considerável da postura violenta, ratificando o pensamento de Girard. Desse modo, nota-se como ferramentas que mantêm o cenário supracitado, não só um sistema educacional deficitário, como também a falta de efetivação dos dispositivos constitucionais.
A princípio, o professor Paulo Freire dissertou sobre a pedagogia libertadora, uma alusão à educação crítica a serviço da transformação sociocultural. Entretanto, os números expressivos de violência no trânsito brasileiro, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), evidenciam um corpo social distante da pedagogia de Freire. Nessa lógica, visualizam-se indivíduos que não enxergam o outro como parte integrante do todo, seja pela falta da alteridade, seja pelo não cumprimento das leis que ordenam o tráfego, e, consequentemente, tais comportamentos tornam-se, nesse contexto, uma força propulsora às agressões de natureza verbal e física. Dessa maneira, observa-se um sistema educacional deficitário, o qual não dialoga com as ideias freireanas e, portanto, não consegue formar cidadãos mais diligentes ao trato com o outro.
Outrossim, a Constituição Federal explicita que é dever do Estado proporcionar um ambiente equilibrado a todos. Entretanto, a realidade expõe uma contrariedade. Esse paradoxo expressa-se, na verdade, à medida que não há políticas públicas eficientes, com o fito de dirimir os casos de violência no trânsito no Brasil. Nessa perspectiva, os fatos expostos ecoam o ‘‘Enigma da Modernidade’’, do filósofo Henrique de Lima, o qual explicita que apesar de a sociedade ser avançada em suas razões teóricas, é, por sua vez, primitiva em suas razões éticas. À vista disso, a dissonância entre a narrativa factual e a Carta Magna precisa ser solucionada.
Logo, é fundamental que o Poder Executivo, por meio de debates com o Ministério da Educação, realize uma reforma educacional, a fim de que haja uma transformação sociocultural no trânsito, com atitudes mais pacíficas. Posto isto, é importante que tal ação foque, principalmente, nas ideias de Freire. Ademais, é imprescindível que o Terceiro Setor, aliado à mídia, desenvolva campanhas - mediante depoimentos de urbanistas e cientistas sociais- que expliquem a necessidade de o Estado criar leis eficientes, com o intuito de efetivar os dispositivos constitucionais. Dessa forma, resolver-se-ão os emblemas oriundos do debate sobre a violência no trânsito no Brasil e, por fim, obter-se-á uma sociedade que enfrente o comportamento violento, destoando da que foi descrita por René Girard.